domingo, 5 de janeiro de 2014

BOLSHOI - Bailarina Brasileira no Ballet Russo

"Numa dança de dois como a nossa, falar muito é dispensável, basta ouvir a música, olhar nos olhos e sentir." (Mariana Gomes)

Um lindo relato da trajetória da bailarina brasileira Mariana Gomes no Ballet Bolshoi. Peguem um lenço. 


Pas de deux – em francês, passo de dois. E, como toda bailarina sabe, no começo de um ensaio de pas de deux pouco se conhece de seu partner, parceiro. Mesmo que abrace e conviva e trabalhe junto, pouco se sabe dele, e com o tempo, mesmo que com poucas palavras, a troca de olhares, o suor, a tentativa de vencer juntos todos os passos e desafios da dança, fazem você conhecer o seu parceiro sem sequer muito falar. E próximo à apresentação, depois de muito ensaio, os parceiros de um pas de deux se sentem tão próximos como se fossem melhores amigos de muitos anos.
Ao chegar a Moscou, oito anos atrás, minha professora russa do Brasil, Galina Kravchenko, me aconselhou a frequentar as aulas de clássico da Professora Svetlana Adyrkhaeva, às 10 da manhã – a aula mais disciplinada, e conhecida como uma das mais rígidas do Teatro.
Svetlana Adyrkhaeva no palco, como bailarina, em "Uma Lenda de Amor", de Arif Malikov
Comecei a frequentar suas aulas e, como num começo de pas de deux, mal sabia quem era quem, quem era Svetlana, suas alunas russas com linhas maravilhosas que ficavam na barra central, primeiras bailarinas e meninas do corpo de baile, eu mal conseguia me concentrar nos exercícios passados, tamanha a minha fascinação por tudo a que eu assistia durante as aulas.
Ela sabia de onde eu era, sabia que pouco eu entendia russo, mas não deixava de ser rígida comigo. Com o tempo fui entendendo quem ela era, e um dia ela me disse: “Você não entende o que eu estou falando em russo? Eu também não entendia russo quando cheguei aqui. Você sente saudade de casa? Eu também sentia quando vim para cá.”
Eu não entendia o que ela quis dizer, quando descobri que ela era da Ossétia, região caucasiana que fazia parte da União Soviética, onde eram selecionadas crianças que viviam no campo, no interior, pelo seu físico. Eram enviadas as mais talentosas para aprender balé aos sete anos de idade em São Petersburgo. E foi assim que começou a jornada da minha professora. Ela entrou num trem com a mãe, a mãe saiu no meio do caminho e a deixou chorando dentro do trem, e o destino final foi São Petersburgo, onde ela entrou na Escola Coreográfica Vaganova, e saiu com o papel de Odette e Odille oito anos depois, convidada a dançar no Teatro Bolshoi de Moscou.
Hoje com 75 anos, ela foi aluna de Galina Ulanova e Marina Semionova, e é um símbolo de disciplina e determinação dentro do Bolshoi, fazendo com que todas as suas alunas sejam vistas da mesma forma. Pouco importa a ela em que papel – valsa do corpo de baile ou primeira bailarina de cisne branco –, ela sempre vê suas alunas, faz correções e briga por elas, defendendo cada uma com unhas e dentes.
Entrar na aula de Svetlana Adyrkhaeva não é fácil. É preciso frequentar sem ausência nenhuma, explicar o motivo de cada vez em que você faltou, usar meia rosa como no palco, todos os dias, falar quando sente dor, e onde e porquê, avisar quando está menstruada, avisar quando vai viajar ou se ausentar. Cada uma tem seu lugar na barra e deve perguntar a ela se pode mudar. Usar sapatilha sempre limpa e com fitas costuradas, saia clara e curta para que as pernas sejam vistas. Se sair mais cedo da aula, deve avisar a ela se tem ensaio. Nunca frequentar aula de outro professor. Sim, não é fácil permanecer neste regime quando se sabe que dentro de um teatro existem varias aulas, cada um faz aula quando pode e com o professor que deseja, com a roupa com que se sente confortável, somente para aquecer e manter a forma, mas não no caso da aula de Svetlana Adyrkhaeva.
Receber uma correção dela, ou um elogio, era motivo de alegria para a semana toda. Não só para mim, mas para qualquer novata que chegasse a frequentar sua aula. Lembro quando pela primeira vez dancei o balé “La Bayadère”, que terminava às 23 horas. Estava muito cansada depois do quarto espetáculo e não consegui chegar a tempo no teatro no dia seguinte para a aula dela às 10 da manhã. E fui à aula das onze com outro professor. Ela me repetiu isso por uns dois meses, lembrando aquele dia em que eu não consegui acordar e estava muito cansada, e lembro que eu não me conformava de ela não entender que eu queria mas não conseguia, fisicamente cansada, fazer sua aula. Por muito tempo frequentei sua aula, sem vontade e com a sensação de que não aguentaria tão forte exigência. Sabia que a maioria do Teatro frequentava outras aulas e não passava por esse tipo de situação. Mas sabia que as mais disciplinadas estavam ali, e, se elas ainda frequentavam esta aula, motivo teriam...
Anos e anos se passaram, correções e correções, e ela já fazia parte da minha vida. Nosso encontro de cada manhã era sem muitas palavras, mas ela já fazia parte da minha vida. Nos dias em que chegava triste e cansada, nos dias em que sofri com a doença do meu pai, tudo ela percebia, tudo ela sabia e com poucas palavras comentava: força, não se entregue. E cada palavra dela para qualquer bailarina tinha muito significado.
Este ano ela completou 75 anos, e do Teatro ela ganhou um espetáculo só seu. Onde ela mesma escolhe o elenco e o repertório, porém, claro que com a aprovação do diretor atual, Serguey Filin.
Sabendo que sua aula é frequentada na grande maioria por primeiras bailarinas e solistas, sua noite foi repleta de grandes pas de deux e solos para suas alunas. Ninguém mais subia ao palco naquela noite, além de suas solistas preferidas. Foi com muita surpresa que vi meu sobrenome no mural entre uma das quatro solistas para o “Grand Pas de Raymonda”. A parte considerada solo, em que no espetáculo de “Raymonda” normalmente dançam grandes nomes, mas não o meu. E na sua noite de Gala, lá estava meu nome entre três solistas.
Ela confiou em mim. Sabendo de tal responsabilidade, eu lhe agradeci, e ensaiamos todos os dias atá a grande noite do seu espetáculo. Ao meu lado três solistas que sempre dançam este Grand Pas de Deux como se estivessem bebendo água, já faz parte do dia a dia delas, mas não do meu, artista do corpo de baile. Ela sabia disso, o meu medo era enorme, e o que era maior que o medo era a certeza de que, se ela confiou em mim na noite mais importante de sua carreira, com certeza tinha motivo.
Esse dia chegou, 27 de outubro de 2013, um domingo, plateia cheia e meu coração disparado, o nosso número era o primeiro. A minha ansiedade era muita, não via a hora de dançar e agradecer-lhe por tudo. Mas sabia que depois do espetáculo teríamos um coquetel em sua homenagem, com flores, champanha, caviar, discurso, pessoas importantes, e chegar até ela seria mais que impossível. Resolvi então entregar flores junto com uma carta, em russo, tentando explicar em palavras tudo que senti ao ser escolhida e ao subir ao palco naquela noite.
A carta foi entregue, possivelmente não lida, era um mar de buquês de flores, um mar de fãs e homenagens a ela. E depois do espetáculo as suas alunas mal conseguiram vê-la.
Mas o trabalho continua, e no dia seguinte tivemos sua aula como sempre pela manhã. Cada um no seu lugar específico na barra, com sua saia, meia rosa, disciplina de escola. Ela chega pontualmente na sala e faz sinal, e... a pianista começa a tocar, e nosso primeiro exercício começa pontualmente o grand plié. Todos concentrados, se olhando no espelho como se nada tivesse acontecido no dia anterior, e ela se aproxima de mim durante o exercício e diz: “Mariana li sua carta, muito tocante.” Eu continuo o exercício me olhando no espelho, não sei o que falar. Ela diz depois de uns segundos, olhando nos meus olhos, “muito obrigada”. A aula continua... tendu, jeté... saltos... ensaios...
Na semana seguinte recebo uma ligação dela no meu celular, ela me convida para jantar num restaurante próximo à sua casa, na Rua Arbat. Restaurante antigo, parecido com um teatro, chamado Casa do Artista. Diz que será um jantar de agradecimento da sua noite, e que convidaria suas alunas mais próximas e pessoas importantes para ela.
Chego às 18 horas em ponto. Várias pessoas mais velhas com medalhas no peito da União Soviética, títulos de Artista do Povo, bailarinas solistas e primeira bailarina. E, ao modo russo, começa o jantar, com brindes em homenagem a Svetlana, com fatos e histórias de sua vida. Quando ouço um brinde de uma amiga dela que diz que todos falam de sua carreira brilhante e de como ela era única no palco, como Odette, Kitri, etc... Mas poucos lembram o começo de sua história, o quanto Svetlana sofreu, sem mãe nem pai, sozinha em São Petersburgo e mais tarde em Moscou, enfrentando sozinha problemas como doenças e hospitais, saudades dos pais, sem ninguém por perto e sem falar bem a língua russa. Todos escutam e brindam, meus olhos se enchem de lágrimas ao perceber que naquela mesa só uma pessoa sabe o que ela passou e entende do que se trata aquele brinde. Não pude conter minhas lágrimas, apesar de saber que na Rússia isso não é comum – todos, frios e fortes, guardam suas emoções. Ela estava sentada muito distante de mim e das suas alunas, e com certeza pensou na mesma coisa que eu. E, do outro lado da mesa, os olhos dela procuram os meus e ela me olha nos olhos como no dia em que me agradeceu a carta. Finjo não chorar. Lembro as palavras da minha professora russa no Brasil: “Vocês brasileiros são muito emotivos. Não chorem, não mostrem a ninguém seus sentimentos, no teatro não se chora.”
Segurei minhas lágrimas, virei meu rosto e continuamos o jantar com brindes, risadas, histórias de seus amigos da Ossétia, medalhas no peito e títulos importantes.
De repente Svetlana se levanta, e é claro que a mesa toda fica em silêncio. E o brinde agora seria para suas alunas. Ela diz: “Minhas alunas são tudo para mim hoje. Vocês sabem que meu marido faleceu há dois anos, e que a minha vida é o teatro, dedicada às minhas alunas, é o que me resta. Eu conheço cada uma, e cada uma delas, como no exército, não quer ser só um soldado, quer ser general, e cada uma com seu caráter diferente. Eu tento explicar a elas que todas não podem ser generais, uma será soldado, outra será comandante, e assim é o teatro... Uma, primeira bailarina; uma solista; outras, corpo de baile. Mas o que importa é fazer o seu trabalho bem feito. Quero aqui falar da minha aluna brasileira, que me escreveu uma linda carta, e nós sabemos a semelhança das nossas histórias. Mariana Gomes chegou do Brasil e mal falava russo, até hoje frequenta a minha aula. Queria que vocês soubessem a pessoa que esta menina é. Ela é incrível. Dançou na minha noite um quarteto, e dançou muito bem. Cuida do instituto onde estuda na minha aula, para ser professora assim como eu, e será. Ela um dia voltará para o seu Brasil com muito orgulho, assim como eu tenho orgulho da minha nacionalidade, e não estou mandando você embora, não. Você já é nossa, faz parte do nosso Teatro, mas um dia você terá suas alunas no Brasil, assim como eu tenho as minhas alunas, e você vai amá-las, assim como eu amo vocês.”
A essa altura do brinde, o choro já não conseguia mais ser escondido. Todos na mesa olhavam para mim e aplaudiam tão alto que ninguém ouvia meus soluços. Levantei-me, abracei Svetlana e chorei como uma criança no colo de sua mãe. E jamais esquecerei essa noite. Foi uma emoção carregada por oito anos, contida dentro de mim por quase uma década e apenas uma noite de poucas porém corretas palavras. E assim como o grand pas de deux dançado em sua noite de homenagem, assim permanece a nossa história, um pas de deux em que cada minuto que se passa de ensaio, com olhares e poucas palavras, esforços e vitórias, os parceiros vêm se conhecendo cada dia mais. Onde falar muito é dispensável. Numa dança de dois como a nossa, falar muito é dispensável, basta ouvir a música, olhar nos olhos e sentir
Obrigada, Mariana. Obrigada, Svetlana.

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