terça-feira, 25 de agosto de 2015

Do Blog da Aerith - Bailarinas do mesmo Ventre

BAILARINAS DO MESMO VENTRE
Texto extraído do blog - Aerith Tribal Fusion | Texto completo:

Falar sobre o que é o Tribal Fusion requer sair da "zona de conforto", sem indagações e contestações, para colocar nossas mentes para refletir e tentar raciocinar diante do tema, que não é tão simples assim, principalmente no Brasil. Primeiro, porque não moramos nos Estados Unidos, particularmente, na Califórnia, que foi o berço da dança. Conhecer o local, entrar em contato com sua cultura e “respirar o mesmo ar” é importante para começar a entender todo esse processo. Há de se pensar também no processo histórico, político, sócio-cultural para entender tudo isso. Ou seja, é bem mais complicado para entendermos do que as norte-americanas. Talvez, isso esteja na mesma proporção delas entenderem o samba e todo o processo que este também possui na nossa cultura. Segundo, como já dito anteriormente, a dança entrou faltando peças, aqui no Brasil. Faltou explicarem sobre o ATS® e que este era a base do Tribal Fusion. Ou seja, faltou uma parte bem grande a ser explicada. Quando conseguiram encaixar essa peça na cena, a dança já estava enraizada e, com ela, seus vícios, suas disfunções e carências. Mas houveram bailarinas engajadas em recuperar tudo isso e reconstruir  tudo isso. A dança tribal ainda é recente no país e, por mais que o acesso as informações e professores tenha sido aumentada, a comunidade de dança do ventre ainda não entende o que é o Tribal. Tudo isso eu já disse em um post anterior, que você pode ler aqui, caso tenha interesse.

Na minha opinião, o Tribal Fusion faz parte do grupo de danças do ventre. Danças essa que não é só a dança do ventre com “glamour” ocidentalizada que estamos acostumados a ver em cima dos palcos. Pensar em Tribal Fusion é  pensar no que é a própria Dança do Ventre. É tentar sistematizar as idéias para que essas tenham coerência entre si.  De forma bem simples (resumida), conhecemos a Dança do Ventre:
  • Tradicional - libanesa, egípcia, etc; 
  • Clássica - bases no ballet clássico, como giros, postura elegante, meia-ponta,etc;
  • Moderna - tem um visual mais flexível, músicas mais parecidas com ocidentais, mantendo-se os ritmos árabes, etc;
  • Folclore Árabe - Ghawazee, Khaleege, Hagalla, Fellahi, Núbia,etc;
  • Fusão - fusão da base de passos da dança do ventre com outras danças, como indiana, flamenca, africana, etc. 
Todos esse conjunto de dança faz parte das danças “do ventre”. Claro, muitas delas fazem referência à dança ligado originalmente ao arquétipo feminino, à celebrações cotidianas ou estacionais das diferentes épocas do ano, da fertilidade, gestação e maternidade. Essas danças tem em comum muito gingado, movimentos acentuados nos quadris, ondulações e vibrações abdominais. Sim, existem as danças árabes que são masculinas, mas estamos entrando apenas no mundo feminino, pois é o enfoque em questão. 

As danças folclóricas árabes são de diferentes lugares do Oriente Médio ( “um termo que se refere a uma área geográfica à volta das partes leste e sul do mar Mediterrâneo. É um território que se estende desde o leste do Mediterrâneo até ao golfo Pérsico.” ) e Norte da ÁfricaEu aprendi que estudar dança do ventre requer deixar a preguiça de lado e olhar todo o contexto em si. Então, para nos situarmos, temos que procurar um mapa geográfico e visualizar os países que fazem parte do:

 - Oriente Médio (Afeganistão, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Chipre, Egito, Emirados Árabes Unidos, Lémen, Israel, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwat, Líbano, Líbia, Omã, Palestina, Qatar, Síria, Sudão e Turquia);

- Norte da África (alguns países que são da região do Oriente Médio também fazem parte do Norte da África, como Egito, Líbia e Sudão; os demais países são Argélia, Marrocos e Tunísia).

Ouled Nail
A partir daí, temos que conectar às danças folclóricas que conhecemos. Por exemplo, o Hagalla é uma dança beduína, encontrada no Egito e Líbia. Dança Núbia é originária da Núbia, região entre o  Egito e Sudão ao longo do Rio Nilo. Fellahi é no Egito, uma dança de agricultores. Khaleege é uma dança do Golfo Pérsico (Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Quatar, Bahrein, Kuwait, Iraque, e Irã). As ghawazee são denominadas ciganas egípcias que, provavelmente, imigraram do Norte da Índia. Na Argélia temos as Ouled Nail. Enfim, essas são algumas danças típicas e suas regiões de origem.


Agora vamos nos voltar para a dança tribal. Sabemos que o Tribal tem três principais bailarinas que participaram do seu desenvolvimento: Jamila Salimpour, Masha Archer e Carolena Nericcio. A partir disso, podemos pensar em cada uma delas separadamente para depois juntá-las.

Pensei primeiro: “O quê é Jamila Salimpour?” Quais suas inspirações, influências? Como foi criado o Bal Anat? Eu não vou desenvolver tudo isso, pois isso daria outro enorme post. Então, de uma forma sucinta vou tentar colocar as respostas e esquematizar aqui. 

1) Anteriormente, Jamila foi dona de uma casa noturna, Bagdad Cabaret, no Broadway. E isso é um fator importante no contexto da dança tribal por dois motivos, na minha opinião: 
  • por ela ter estado em contato com diferentes bailarinas do Oriente Médio, conhecendo diferentes passos e catalogando os movimentos, criando um rico repertório de passos; 
  • para a construção de uma dança de entretenimento, uma dança performática.
2) Na década de  60, Bal Anat nasceu no contexto do Renaissance Faire, sendo um grupo bem circense, devido a sua bagagem como acrobata, havendo  apresentações acrobáticas, show de mágica, música ao vivo e representação de  fusão com danças  folclóricas do Egito, Marrocos, Argélia e Turquia de forma teatral e através de licença criativa/poética alteravam tais danças, ao introduzir alguns movimentos modernos, porém, de forma a aparentar que eram representativos ao arquétipo antigo para o público. Logo, a primeira geração tribal nasceu da fusão entre as danças folclóricas de tais regiões. O figurino do Bal Anat era baseado no Norte de África e do Mediterrâneo Oriental, assuit escuros, uso de máscaras, cobras e espada (sim, Jamila também foi a criadora da dança com a espada e com a cobra na dança do ventre). Assim, este tipo de tribal é chamado como Tribal Folclórico, termo que John Compton utilizava para descrever seu próprio grupo, Hahbi ' Ru, que é uma linha bem forte do Bal Anat.
  
Hahbi ' Ru

Nosso segundo pilar foi Masha Archer, aluna de Jamila e professora de Carolena Nericcio. Masha tinha uma óptica diferente da dança do ventre, ela queria valorizá-la, trazendo-a para cima dos palcos, tirando-a da marginalidade que ela vinha sendo tratada em bares e restaurantes. Masha formou, nos anos 70, o San Francisco Classic Dance Troupe, cujo estilo era denominado “Tribal Art Nouveau”, pois ela utilizava figurinos em tons pastéis, joalherias pesadas de tribos e peças antigas tanto do Oriente Médio quanto da Europa, fazendo alusão a Arte Européia; além do uso de outras músicas além das tradicionais folclóricas, mas músicas clássicas e óperas, o que compunha todo uma visão de uma dança que lembrasse pinturas européia.

O terceiro pilar e o fomentador do estilo Tribal, é Carolena Nericcio. No final da década de 80, ela cria o seu grupo, o FatChance BellyDance (FCBD). Carolena teve muita bagagem herdada por Masha, mas a distribuição das bailarinas no palco teve influência de Jamila: forma de coro em meia-lua, havendo momentos de destaque entre um pequeno grupo de duas ou três bailarinas que depois retornavam ao coro principal. No figurino há o uso de calças bufantes, xales, cholis , sutiã de moedas e uso de adornos étnicos e flores e muitas jóias étnicas. Ao figurino foi acrescentado turbantes, saia rodada, bindis e cinturões com pom-pons, além de ser um figurino mais sério, com mais uso do preto e cores vivas. Carolena resgata as raízes folclóricas do Norte da África e do Oriente Médio, acrescentando a postura, projeção do tórax, braços e alguns passos da dança flamenca, e o Kathak, dança do Norte da Índia, também foi acrescentando, através de giros e outros movimentos adaptados deste. Assim, houve a formatação dos passos mais utilizados a partir da necessidade de apresentá-lo em diferentes espaços (pequenos ou muito grandes), por meio da improvisação coordenada.

OBS: Lembrando que o ATS® não é a fusão aleatória da dança do ventre, indiana e flamenca! É uma dança formatada, que possui características próprias e independentes das danças anteriores mas que usou recursos das mesmas para criar sua própria identidade. Eu não vou me alongar nesse ponto, pois já dei a minha opinião sobre isso nos textos anteriores, quem se interessar, leia aqui.

Nesses três exemplos vemos o uso do termo “estilo tribal americano”. O termo “estilo tribal” pela tentativa de representar tribos e seus arquétipos de antiguidade. Contudo esse estilo não era genuíno, não era verdadeiramente étnico, pois eles não representavam fielmente seus folclores, modificando passos e figurinos; o termo “americano” é empregado para esclarecer que é uma adaptação americana, ou sob a óptica, “sensibilidade” dos norte-americanos em recriar aquele folclore e trazê-lo para nossa atualidade/realidade. Os americanos são muito performáticos, sempre elevando a arte em proporções de espetáculos e isso pode ter sido visto desde Jamila e seu show circense, visando a diversão e o entretenimento dos espectadores de forma impactante, inusitada e hipnotizante, através de uma série de atos entre  dança, malabarismos e magia. Esse lado circense é muito característico até hoje no Tribal Americano.
De uma forma bem simples, poderia ser um “Neo-folclore”, se esse termo fosse permitido, mas deixo claro que o emprego dele é incorreto, estou utilizando apenas para ilustrar este processo, porque folclore se trata de tradição, e isso é consolidado também através do tempo, passados através de gerações.

Bom, agora depois de traçar todo esse panorama sobre nossa dança, eu vou dar o meu ponto de vista. 

Na minha opinião a dança tribal é um tipo de dança do ventre. Não a dança do ventre que conhecemos, mas sim uma dança do ventre “modificada”. Vou dar um exemplo bem simples: médico x médico veterinário. Ambos são médicos, porém, um é de humanos e outro de animais. Geralmente o médico tem mais prestígio que um médico veterinário (= dança do ventre é mais famosa que a dança tribal). Contudo, o veterinário estuda não apenas  a base da medicina comum as duas, mas outras espécies de animais (= estuda diferentes fusões, como dança indiana, flamenca, street dance, etc), ele tem outras áreas de atuação além da clínica e laboratório, mas atua no campo, tecnologia de alimentos, etc . Eu vejo a mesma coisa com relação ao caso Dança do Ventre X Dança Tribal.

Outro ponto a demonstrar que o tribal é uma dança do ventre é que esta veio de bailarinas do ventre. Percebe-se que a maioria das bailarinas que já tem a base de dança do ventre consegue aprender o tribal sozinho (e esse foi o processo inicial que aconteceu no Brasil quando a informação ainda era escassa. Não vamos esquecer do processo que a dança se desenvolveu por aqui). Fazendo um parênteses: eu não estou dizendo que é para todo mundo deixar de fazer aulas de tribal porque você pode aprender sozinho. Não é essa a questão. Isso foi dado a “circunstâncias de sobrevivência” e adaptação de um estilo! As bailarinas tinham que se virar com as únicas informações escassas que conseguiam ter acesso para estudar. E logo depois tivemos o início de workshops internacionais que foram alicerçando melhor o estudo das bailarinas nacionais. Então, voltando ao assunto, imagine pegar uma bailarina que só dançou dança flamenca ou só dança indiana e nunca fez dança do ventre. Será que elas teriam a mesma facilidade que as bailarinas de dança do ventre? Eu acredito que não, apenas dominariam aquilo que diz respeito a sua dança, portanto, elas teriam que aprender os movimentos básicos da dança do ventre, como maias, shimmies etc, pois a maior base do tribal veio da dança do ventre. Imagine a dança tribal como uma árvore genealógica, quando vamos olhando as gerações vemos que o “sangue da dança do ventre” é o que mais se mantém. O cruzamento da dança do ventre com outras danças étnicas se deu com mais força a partir da Carolena Nericcio e sua trupe.

 Além disso, além da base de movimentação ser principalmente de dança do ventre, vemos os ritmos árabes sendo trabalhados com o uso de snujs e derbakes, eu nunca vi , por exemplo, o uso de percussão indiana nas apresentações de Tribal. O uso de elementos cênicos utilizados por bailarinas do ventre, como véus, cestos, jarros e espadas. As bailarinas de tribal no exterior sempre participam de eventos de dança do ventre e não somente os especializados na fusão tribal. Todas as bailarinas famosas, assim como grupos  utilizam o termo “bellydance”: FatChanceBellyDance, Black Sheep BellyDance, WildCard BellyDance, etc.
A dança tribal é étnica contemporânea  no sentido de remeter às tribos, seus folclores e culturas, mas contemporâneo por ser atual e fusionar com danças modernas, como o street dance e a dança contemporânea, por exemplo, misturando músicas eletrônicas, rock, metal, etc; usar figurinos mais leves, sem tantos adornos, ou que valorizem o corpo e a execução de seus movimentos. Eu não gosto muito de usar esse termo, ainda não me sinto confortável o suficiente por ter receio dele ser usado erroneamente (e já vi muitos equívocos e por isso estou comentando), de achar que a base da dança tribal é a dança contemporânea. Essa é um conceito equivocado! Todo o processo da dança tribal veio com a dança do ventre. A dança contemporânea foi introduzida depois, com bailarinas como Tjarda e Heather Stants, por exemplo. Nesses últimos 3 anos é que ela vem ganhando mais enfoque dentro da comunidade Tribal. 
Quando penso nos principais ícones do Tribal Fusion (apenas citarei a Rachel Brice e Zoe Jakes para não me estender ainda mais nesse post) vejo que as duas convergem em suas ideologias, mas usam as bases do tribal de forma diferente. Rachel tem muita influência do estilo Bal Anat, de Carolena Nericcio e Masha Archer; mesmo nunca ter tido aulas ou contato com esta, sinto muito a força de Masha em Rachel, que sempre usa um estilo mais vintage e a Art Nouveau em suas danças, isso foi muito bem visto no The Indigo e agora no Datura vemos as três linhagens bem características em sua dança. Eu acho que ela consegue passar um pouco das três bailarinas bases da Dança Tribal. Vejo Rachel usar a dança de forma ritualística, mas lembrando muito a cultura do Oriente Médio e suas mulheres, a força que um grupo feminino pode causar ao dançar juntas. No caso da Zoe eu sinto essa mistura meio diferente. A Zoe é muito mais performática e teatral na minha opinião, talvez seja toda a bagagem que ela vem tendo ao longo dos grupos de dança e musicais que fez parte. Zoe primeiramente fez parte do grupo Aywah de Katarina Burda, que estudou com Jamila e fez parte do Bal Anat; lembrando que a Zoe já fez parte do Suhaila Dance Company em 2001; também saiu em turnê com The Yard Dogs Road Show que tinha várias performances variadas desde tribal fusion quanto burlesco e afins. Na questão tribal dela, vejo muito o uso da raiz indiana que é a fusão que ela mais utiliza movimentos e aparenta gostar de interpretar seu cerne ritualístico.
No Brasil ainda não nos identificamos como bailarinas do ventre e nem as bailarinas de dança do ventre nos reconhecem como tal. Talvez pela forma que a dança entrou, como poucas informações, havendo “seqüelas” para comunidade de dança do ventre que ainda vê a Dança Tribal como algo estranho. Talvez para dar destaque e status, permitindo que seja uma dança independente e não vinculada à Dança do Ventre. Talvez por preconceito de ser uma dança alternativa, com muitas pessoas tatuadas, com piercings, cabelos coloridos que podem chocar um público acostumado com bailarinas padronizadas. Enfim.
A dança tribal, na minha opinião, é uma dança do ventre principalmente no sentido original da palavra, por ser uma dança feminina, ritualística, de valorização do corpo feminino, do parto, da maternidade e fertilidade. Por ser uma dança cujo ventre é o alicerce de toda dança. E sinceramente, essa rusticidade e sua ancestralidade, a força que ela emana vêm da forte consanguinidade entre suas principais danças que as compõem: indiana, dança do ventre e flamenca. Onde as três convergem em sua linha genética? As três tem a dança cigana como seu ascendente. E acho que isso é determinante para que o Tribal tenha nascido com esse espírito cigano, livre, indomável, ousado, sensual, alegre e festivo, cujas mulheres dançam entre si, resgatando sua feminilidade e ancestralidade nos dias atuais. Talvez essa seja a essência, a magia, o espírito da dança que precisamos alimentar nosso corpo nos dias de hoje, que sempre oxidam com o estilo de vida criado pelo homem industrializado, computadorizado e robotizado em sua rotina cotidiana.


** Negritos e destaques feitos pela autora deste blog, que achou pertinente ressaltar as questões que Aerith traz a tona **
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