terça-feira, 15 de setembro de 2015

ENTREVISTAS - JOLINE ANDRADE

Foto: Marcelo Cunha
Hibridismos de Joline Andrade Foto: Marcelo Cunha
Matéria do site - Mulheres na Dança de 2013

Dançarinas tribais subvertem estereótipos, na medida em que fazem recortes de diversos estilos de dança, assim como em uma “Collage” e criam suas danças a partir de sua própria vivência. Joline Andrade é bailarina especializada nesse estilo de dança, pós graduada em Estudos Contemporâneos sobre Dança pela Universidade Federal da Bahia e reconhecida internacionalmente pela qualidade de seu trabalho. Em março de 2013 esteve presente no The Massive- Las Vegas, dançando no evento mais importante das estudiosas dessa arte. Joline, essa talentosa e inteligente artista, gentilmente nos conta aqui a respeito de seus processos híbridos de criação.

O que é dança de fusão, dança Tribal e a sua especialidade, Tribal Fusion? Numa tentativa de acompanhar a liquidez das informações no mundo contemporâneo, a dança tribal, popularmente chamada de dança étnica de “fusão”, surge como proposta de agregar diferentes manifestações de danças étnicas das mais variadas regiões do mundo, e busca mesclar referências e matrizes de danças tradicionais e transpô-las numa estética contemporânea atualizada. É uma linguagem que, tendo como referência a dança do ventre, mescla conceitos e movimentos de danças étnicas como o flamenco, a dança indiana, danças do Hiphop, ou seja, danças de diferentes culturas e regiões do mundo bem como o(a) yoga. É relativamente recente no mundo da dança (surgiu em torno da década de 60, na Califórnia, durante os movimentos contraculturais do Woodstock), mas bebe na fonte de diversas culturas antigas e mistura tudo numa alquimia contemporânea.

A partir dos estudos em sua monografia “Processos de hibridação na Dança Tribal: Estratégias de transgressões em tempos de globalização contra hegemônica”, pensando em recortes de danças étnicas e processos de hibridação em dança, você acredita ser necessário haver um cuidado ético, no sentido de apropriação de movimentos, criação de métodos e principalmente em tentativas de fazer exigências nos estudos de bailarinas e alunas de tais métodos? Certamente. A dança tribal tem um sistema de códigos específicos baseados em matrizes da dança do ventre, indiana, flamenca e danças do hiphop (popping, locking, ticking, strobe, etc.). Por ser uma dança híbrida nós, artistas e agentes criadores, temos a possibilidade de expressá-la com perspectivas tradicionalistas (ATS, ITS) – que prezam pela manutenção de uma forma/estética, um sistema de códigos – e com perspectivas contemporâneas (Fusões, performances inspiradas na linguagem) – que se propõe a uma desestabilização do sistema em função da adesão de novos códigos e possibilidade de complexificação através novas pesquisas de movimento por experimentação combinatória. O Tribal Fusion está no “intermezzo” entre essas duas perspectivas, se apropriando de ambas. Para identificar algo como tribal, é preciso haver um entendimento de mistura entre basicamente as 4 matrizes que citei logo no início. O modo de organizar estas 4 linguagens é bem particular, porém deve ser afastada a ideia de sobreposição ou somatização de linguagens, pois de fato se trata de uma imbricação de signos.

Como você pensa o fazer em dança, a partir de reflexões/estudos contemporâneos e como acredita estar construindo seu trabalho como bailarina na prática? Acredito na capacidade de cada um desenvolver suas próprias misturas dentro do sistema de códigos da dança tribal. Acho complicado pensar em bases e fundamentalismos – uma essência tribal – pois já li uma vasta bibliografia acadêmica que desconstrói esse modo de pensar (estão conectados a um conservadorismo atrelado a estratégias de mercado). Os categorias/estilos/subestilos criados, para mim, não servem para diagnosticar uma potência artística e criativa. Eu procuro transitar por eles e me preocupo principalmente com o processo criativo, não com o produto de criação. Vejo muitas pessoas repetirem o discurso de que é preciso estudar isto para fazer aquilo, sem ao menos refletir os perigos que ele carrega. Eu a cada dia mais acredito na ampliação das possibilidades e não me reduzo a qualquer categoria. O que quero mesmo é desestabilizá-las, pois me parece mais artístico!

Você participou do The Tribal Massive – Las Vegas, ao lado de Zoe Jakes e outras importantes bailarinas de Tribal Fusion, quais são suas impressões sobre esse encontro? Alegria que se transborda! O Tribal Massive™ foi uma experiência memorável! Conheci professoras que me fizeram borbulhar com novos conhecimentos, novas ideias. Conheci pessoas adoráveis que me fascinaram com tamanha receptividade, amenidade e conhecimento. O que poderia ocorrer se não um completo fascínio pela diversidade desta Tribo? Milhões de descobertas, de dentro pra fora e de fora pra dentro. Intensas partilhas do sensível!!! Foram, somando a primeira e segunda semana de aulas, 85 horas de compartilhamentos profundos e intensos com professoras extremamente dedicadas e atenciosas. Fiquei felicíssima ao perceber que todas elas me chamaram pelo nome, como a maioria das minhas colegas o fizeram. Uma honra já ter este reconhecimento no grupo.

O ambiente intimista do evento permite relações super sinceras. Todas as professoras possuem a cultura de, após o espetáculo, ir conversar com cada dançarina que se apresentou para parabenizar os trabalhos levados ao palco. Eu fiquei felicíssima ao ter o reconhecimento da Zoe, que correu atrás de mim nos corredores do hotel para perguntar mais sobre a minha carreira e comentar sobre o meu solo. Após este dia, Zoe me pediu para ficar na frente da sala e ajudá-la como guia para desenvolvimento de suas propostas de estudo técnico e coreográfico. Fiquei muito tímida com o pedido, pois é uma grande responsabilidade estar à frente de uma sala de aula com colegas bem experientes, mas tudo é sempre aprendizado… A Sharon Kihara, como sempre muito amável e merecedora de admiração, me chamou após a apresentação para falar que me acompanha desde a primeira visita dela ao Brasil e que estava muito orgulhosa das minhas conquistas.

Você vai ministrar um curso de formação de Tribal Fusion, em São Paulo, conte um pouco em como está planejando realizar as aulas relacionando com estratégias de ensino “contra hegemônicas” possibilitando gerar novas artistas/criadoras/dançarinas. A ideia principal é dar autonomia de estudos, e isso pra mim é formar. Preparei textos, encaminhei uma lista de indicação de referências bibliográficas, como também escrevi um projeto apresentando qual a proposta do curso, a justificativa, os objetivos e o conteúdo programático de cada módulo que iremos trabalhar. Serão ao todo 8 módulos, de 2h30 cada, com temas específicos a serem desenvolvidos em cada um, que tratarão desde o estudo anatômico e cinesiológico do corpo até os processos criativos, filosóficos, os estudos musicais e a proposta de laboratórios teatrais.

Foto: Marcelo Cunha
Como movimento cultural e instrumento artístico-educacional um projeto de formação arquitetado em torno desta linguagem de dança, se engaja na ampliação das possibilidades de experimentação de outro repertório de movimentos e propõe o contato com as pesquisas de dança mais recentes desenvolvidas pelas tribalbellydancers mais comentadas na atualidade. Serão compartilhados todos os temas adquiridos no Tribal Massive™, como também serão esclarecidas as especificidades e diferentes abordagens de assuntos relacionados ao universo tribal.A mistura das culturas árabe, espanhola, indiana, norte-americana, brasileira, etc., na dança étnica contemporânea traz a possibilidade de fomentar os interesses para cada cultura distinta como também provocar questionamentos sobre o modo como cada artista manipula este sistema híbrido de informações em suas experimentações combinatórias podendo, desse modo, estimular os processos de criação dos inúmeros dançarinos que estão se especializando na dança tribal e promover a sua autonomia.
Neste sentido, é possível dizer que a proposição deste curso tem o objetivo de disseminar a dança tribal por meio da emancipação dos agentes criadores participantes das oficinas. No Brasil os poucos grupos de dança tribal atuam particularmente, por meio de mostras isoladas, sem um real entrosamento e efetivos recursos que visem o aprofundamento de estudos e formação de plateia. Com a execução deste curso de formação, o número de agentes da dança tribal poderá ser ampliado e este será o ponto de partida para a complexificação das redes entre artistas de diversas regiões do país.

Joline Andrade e Zoe Jakes“Por já ter acessado um grande material sobre dança e contemporaneidade considero que o que importa mesmo é a obra, suas estratégias de composição e sua potência enquanto sistema de signos. Para mim já não é mais necessário rotular em que categoria ela se encaixa ou, menos ainda, determinar qual a trajetória linear de formação que uma dançarina(o) deve ter.” 
Acredito que estamos num momento de “crise” onde é bastante complicado definir e categorizar sistemas de dança. O hábito de conceituar e apontar uma verdade absoluta sobre algo é um resquício de uma necessidade moderna geralmente limitada “ao que é e ao que não é”, abandonando uma gama de possibilidades do ser… Hora ou outra caímos no conflito de apontar o feio/bonito, o profissional/não profissional, o que é tribal/o que não é tribal. Outro equívoco enorme é determinar uma lógica unidimensional de aprendizado ao ditar a obrigatoriedade de estudar uma categoria primeiro que a outra.

Por já ter acessado um grande material sobre dança e contemporaneidade considero que o que importa mesmo é a obra, suas estratégias de composição e sua potência enquanto sistema de signos. Para mim já não é mais necessário rotular em que categoria ela se encaixa ou, menos ainda, determinar qual a trajetória linear de formação que uma dançarina(o) deve ter. Desde a Modernidade, temos essa tendência separatista/dualista/dicotômica em querer discriminar as coisas e esquecemos que, na maioria das vezes, as informações estão tão imbrincadas que é preciso enxergar o que há além de uma coisa ou de outra. Digo isso principalmente por estarmos falando da dança tribal em que o princípio organizativo é a hibridação de códigos.

Para dissertar teoricamente sobre dança tribal na universidade estudei amplamente as macro-categorias (aponto como macro, pois reconheço a permeabilidade de suas fronteiras) mais populares da linguagem e conheço o sistema organizacional de cada uma delas: ATS/ITS, Tribal Fusion e Fusões. Resumindo esta resposta apontarei a seguinte ideia: Minhas perspectivas com a dança tribal não são tradicionalistas (conservadoras, modernas), são contemporâneas. Existem formas diferentes de pensar a dança tribal e a forma tradicional, para mim, não traz significados. O tradicional pode trazer significados para uma dançarina, e isto é ótimo! Há de se haver diversidade de pensamentos, compreensão mútua e diálogo para evoluirmos enquanto pessoas, artístas e críticos de dança. Haverá mil formas de justificar o pensar de um ou de outro modo, então é preciso discorrer de maneira impessoal e madura a este respeito, afinal não estamos falando de fulano ou sicrano e sim de concepções artísticas que precisam de crítica para serem refinadas. Isso já acontece com cinema, teatro e outras danças… Por que não falar com ética e inteligibilidade sobre a dança tribal?

Pude ter contato direto com o trabalho de algumas professoras que eu ainda não conhecia pessoalmente e que me decepcionaram um pouco pelos seus conservadorismos como também por ensinar de maneira incorreta conceitos de famosos estudiosos de dança e teatro em que já pude ter acesso na universidade. Fiquei muito contente por ver no discurso de outras uma reflexão mais contemporânea sobre as questões que apontei nas respostas a cima. Sobre o Massive Spectacular™ eu confesso que fiquei extremamente nervosa com a pressão que todo o evento provoca para realização da performance de palco. Ufa! Até então não tenho certeza se fui bem. Estou bastante ansiosa para ver o vídeo e somente após vê-lo irei dizer: “Fui bem!” ou “Poderia ter sido melhor!”. Avante!

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