quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O que é Tribal Fusion? por Jamille Berbare

TEXTO REPOSTADO, COM PERMISSÃO DE JAMILLE BERBARE.
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O que é Tribal Fusion?

A dança tribal, considerada em constante mutação, é uma dança étnica contemporânea, que funde várias raízes e arquétipos. Tem sua base em danças orientais, como por exemplo, a dança do ventre, fusionando com dança indiana, flamenco, breakdance, danças folclóricas de várias regiões, inclusive as nômades orientais e ocidentais. É um estilo de dança contemporâneo, nascido na década de 60, mas é baseado também na ancestralidade artística.

A Dança Tribal, é uma vertente surgida nos EUA, em 1969, quando a dançarina Jamila Salimpour, ao fazer uma viagem ao Oriente, se encantou com os costumes dos povos tribais. Fascinada pela dança, pela estética e pelo universo místico do Oriente, Jamila resolve acrescentar e mesclar os elementos que havia conhecido na viagem. Junto à sua trupe Bal Anat, Jamila passou a desenvolver coreografias que utilizavam passos característicos da dança oriental e acessórios das danças folclóricas. Ela tomou como base as lendas tradicionais do Oriente para criar uma espécie de dança teatro, inventando um figurino inspirado no vestuário típico das mulheres orientais, que ficou como uma das características mais marcantes do estilo Tribal (SALIMPOUR, J. 1990).
  
“Estilo Tribal é uma modalidade de dança que funde arquétipos, conceitos e movimentos de danças étnicas das mais variadas regiões, como o Flamenco, a Dança Indiana e danças folclóricas de diversas partes do Oriente, desde as tradicionais manifestações folclóricas já bem conhecidas pelas bailarinas de dança do ventre às danças tribais da África Central, chegando até as longínquas tradições das populações islâmicas do Tajiquistão” (HALIM, S. 2008).

Rico em dramaticidade e plasticidade, o Tribal Fusion tem conquistado a atenção do público pela audácia em agregar elementos culturais diferentes e pela característica anacrônica: ao passo que evoca personagens míticos e arquetípicos recolhidos do passado, transportando o público à sua raiz antropológica, também traz elementos contemporâneos muito inovadores enquanto proposta artística, ratificados em uma indumentária tão intrigante quanto a dança, com todos esses componentes convivendo harmonicamente entre si (BRAZ, P. A. 2012).

A dança que permeia tudo, que é macrocósmica e microcósmica, é também expressão, comunicação. Na era da globalização, da liquefação dos valores mais primordiais o estilo Tribal parece vir na contramão desse processo, utilizando-se dele como mais uma ferramenta para refazer o jogo da ritualidade, da sacralidade, da criação (CELESTINO, L. C. 2008). “Assim, o Tribal seria a dança do novo milênio, da universalização, da globalização. A Dança do futuro!” (HALIM, S. 2008).

É uma dança propositalmente ecológica em seu figurino, pois faz utilização de sementes, flores, conchas e tudo o mais que remeta à ancestralidade e naturalidade (CELESTINO, L. C. 2008). Os figurinos são construídos desta forma, utilizando materiais da natureza e peças já existentes que são reutilizadas e transformadas para fazer parte da indumentária.

O estilo que hoje conhecemos como Dança Tribal, tem suas bases no trabalho desenvolvido por três grandes bailarinas: Jamila Salimpour, Masha Archer e Carolena Nericcio. Cada uma delas, a sua maneira, contribuiu para a estruturação e fundamentação do estilo, que é uma forma de dança bastante nova com suas origens nas tradicionais danças do Oriente Médio. Os componentes dessa história incluem dançarinos ciganos que inspiraram os orientalistas do século XIX (BRAZ, P. A. 2012).

Pensando no nascimento do estilo tribal, na década de 1960, Jamila Salimpour criou o grupo Bal Anat em 1968, com o qual fazia experimentos em fusionar danças diversas do Oriente Médio. Salimpour também ousou em desestruturar modelos vigentes a respeito de dança do ventre, circo e teatro, propondo uma fusão de todos os elementos a sua pesquisa em danças orientais. Nesse “movimento tribal” que começou a nascer nota-se uma intimidade com o movimento denominado de “Contracultura”.


A contracultura foi um grande movimento de arte, mesclado com manifestações dos movimentos sociais de contestação, que ao longo da década de 60 marcou o mundo e influenciou gerações. Não foi uma rebeldia de jovens, e sim a experiência de partir para a ação. Se estes movimentos não conseguiram mudar a realidade, ao menos transformaram mentalidades. Toda a aldeia global contestava os tabus morais e culturais, os costumes e padrões vigentes e as instituições sociais. Propunham-se novas maneiras de pensar, sentir e agir, e assim criava-se outro universo com regras e valores próprios.

O movimento tribal recebe grande influência deste movimento de contra cultura, pois agrega o misticismo, o orientalismo, as culturas alternativas, a quebra de padrões de danças vigentes na época e o modo comunitário de dançar em grupo. Mesmo que no seu início, o que contava era o entretenimento e ganho econômico, as grandes mães da dança tribal lutaram por outros objetivos.

A linhagem começa com os dançarinos ciganos do Norte da África, particularmente Ghawazee do Egito e Ouled Nail da Argélia. Os dançarinos ciganos foram introduzidos nos Estados Unidos em 1893, no Grand Columbia Exposition, em Chicago. Eles geraram grande agitação e fizeram shows burlescos que inspiraram toda uma nova Hollywood do gênero vamp. Bailarinos árabes foram atraídos por este glamour e queriam emular ideais ocidentais, portanto adotaram a versão Hollywood como sua própria. Assim a tradicional “dança do ventre moderna cabaré egípcia” é uma construção norte americana que foi modificada pelos árabes para suas próprias necessidades artísticas e econômicas, inseridos neste novo contexto cultural (RALL, R. O. 1997).

Jamila Salimpour, foi a responsável por ensinar essa construção norte americana de dança do ventre e a partir disso trazer suas fusões de acordo com a história e as necessidades.

Jamila se mudou para Berkeley, Califórnia em 1967, e a cidade estava cheia de estudantes que estimulados pela música indiana de Ravi Shankar (SALIMPOUR, J. 1990), estavam prontos para escutar e olhar para outra importação de destaque do Médio Oriente. Seus ensinamentos sobre dança foram encorajadores, pois as alunas absorviam os movimentos e as transições. Nessa época acontecia aos sábados a Feira da Renascença (Renaissance Pleasure Faire), a qual suas alunas se apresentavam de forma não sistematizada. Era uma feira de arte, organizada como um imenso circo ao ar livre baseado no século XVI, continha comida e entretenimento daquela época, juntamente com aparições da majestade Rainha Elizabeth, que dava um prêmio ao melhor artesão em exposição da Feira. Malabaristas, mágicos, mímicos, qualquer tipo de entretenimento era encorajado. Uma tentação era que qualquer um que viesse com uma fantasia de época ou qualquer coisa, podia entrar sem pagar. A coordenadora de entretenimento da feira, Carol Le Fleur, pediu a Jamila que organizasse suas alunas para que não ficassem desviando a atenção do público em vários lugares e momentos da feira, e sim utilizassem o palco por um período somente (SALIMPOUR, J. 1990).


Então foi em setembro de 1968 que a ideia de formar uma trupe nasceu para Jamila. Naquele ano ainda não possuíam um músico, e assim Jamila batucava acompanhada por uma bailarina de folk que recentemente havia adquirido a darbouka (um tipo de derbake) e se dedicado a aprender para tocar nos palcos. Desse modesto começo, o núcleo da trupe estava formado. Na busca de um nome, Jamila queria honrar a Deusa Mãe, Anat, e com “bal”, a palavra francesa para dança, surgiu o nome Bal Anat, a Dança da Deusa Mãe (SALIMPOUR, J. 1990). 

Jamila Salimpour sabia que o formato cabaret não seria apropriado para a Feira, e assim quis resgatar sua experiência do circo Ringling Brothers Circus. Assim o Bal Anat era como um show de variedades circenses que qualquer um desejaria ver em um festival árabe. O show de variedades que representava um meio termo de estilos de danças antigas com o Oriente Médio, em acréscimo com dois mágicos, Gilli Gilli do Egito, e Hassam do Marrocos. As dançarinas acrobatas egípcias eram tão flexíveis quanto seus predecessores, inclusive tinham um professor grego de matemática da UC Berkeley, que sabia como pegar uma mesa com os dentes, com Suhaila (filha de Jamila) em cima dela (SALIMPOUR, J. 1990).

Foi um olhar com um formato que eventualmente foi imitado por todos os Estados Unidos. Quem era profissional às vezes sabia esta origem, mas na maioria das vezes não tinham conhecimento de onde isso havia surgido. De fato, muitas pessoas acharam que essa era a “dança real”, quando na verdade era metade real e metade besteira. Os folhetos de Bal Anat informavam ao público que vieram de muitas tribos. Talvez fosse a origem da expressão “dança tribal” (SALIMPOUR, J. 1990).

Havia um problema em uma feira a céu aberto do século XVI, que era reproduzir músicas já que não havia eletricidade, baterias, amplificadores portáteis, e nenhum truque acústico do século XX. Assim tiveram que voltar às noites prévias das músicas das tribos. Foram utilizados para fazer música: snujs, sistrums (instrumentos de percussão), tamborins, batedores de madeira, derbakes, mijwiz (flauta de madeira originária da Síria), mesa de beledi (grande bumbo), edefs (parecido com tamborim), oud (cordofone em forma de meia pera ou gota, similar ao alaúde) e o mizmar (oboé egípcio), além de algumas tentativas feitas com a música indiana. A trupe estava instruída a fazer o zagareet, a ululação utilizada pela sociedade do Oriente Médio (SALIMPOUR, J. 1990).

Nos anos seguintes Jamila Salimpour, quis acrescentar mais variedades nas danças, então acrescentou dança dos copos de água, dança karsilama (réplica da dança popular turca), dança com espadas, com máscaras da Deusa Mãe (expressão das origens primitivas da dança), dança do “vaso” (apoiados na cabeça), danças beduínas, dança indiana katak (SALIMPOUR, J. 1990).

Jamila Salimpour é considerada a grande mãe do estilo por ter sido quem propôs as primeiras fusões e os primeiros experimentos e disseminou o estilo através do grupo Bal Anat. Na época ela pensava apenas em desenvolver um estilo próprio de se fazer dança do ventre, sem vislumbrar os rumos e proporções que o seu trabalho iria tomar. Masha Archer, sua aluna, foi quem deu contornos fundamentais para estética do estilo, no que diz respeito aos movimentos e, sobretudo, na composição dos figurinos.

Masha Archer havia interrompido seus estudos com Jamila uma vez que ela estava pronta para levar seus resultados aos clubes. Ela estudou com Jamila Salimpour por dois anos e meio antes de fundar o San Francisco Companhia de Dança Clássica, que existiu por catorze anos (1970 até meados da década de 1980). De acordo com Masha, Jamila sentiu que a dança merecia um local melhor do que restaurantes e bares, mas não havia nada que poderia ser feito sobre isso: "Ela estava transmitindo que tão repugnante como à cena pode ser, você tem que aturar isso porque esse é o único jogo na cidade”. Também, se você fosse um professor, você deve ensinar seus alunos a tolerar a situação e cooperar. Masha adotou a dança, mas tinha uma visão diferente de interpretá-la. A disciplina de Masha acrescentou uniformidade para o novo estilo por não distinguir entre os movimentos das diferentes regiões e simplesmente identificá-la como "dança do ventre". Carolena Nericcio, membro de sua trupe de sete anos, brincando, chamava o estilo de Masha de "Tribal Art Noveau”, porque ela queria que o figurino refletisse mais de uma mistura de arte europeia (RALL, R. O. 1997).


A abordagem de Masha para figurino foi influenciado por Jamila, mas ela o levou para mais longe “em um louco, o ecletismo, voraz aquisitivo”. As bailarinas pareciam algum tipo de europeus parisienses e tunisianos com um forte olhar bizantino tribal, que foi completamente inventado. Masha sustentou que o olhar era aparentemente autêntico, usando joias tribais e peças antigas do Oriente Médio e Europa. Ela se referiu a ele, porém, como "Authentic Modern American" por causa do conceito americano de tomar liberdades com a autenticidade e origem. Masha também teve uma atitude americana para a escolha de diferentes tipos de música para dança do ventre. Ela descobriu que usando apenas a música popular do Oriente Médio para a dança, o que era esperado, foi um caminho estreito de olhar para ela. Ela decidiu que não havia muitas fontes de música que relacionaram as expressões folclóricas, tais como fontes musicais de outros países, até mesmo ópera e músicas clássicas. Masha se recusou dançar em bares e restaurantes e preferiu tocar em eventos culturais. Deste modo ela trouxe a consciência de que havia outros lugares em que poderiam ser mostrada a dança do ventre, podendo ser uma peça de teatro aonde as pessoas vão com a finalidade de ver a arte realizada. No entanto, ela não se refere apenas a um estágio formal. Ela sustentou que a Feira da Renascença foi um excelente ambiente para a dança, porque as pessoas esperavam ver um show dos bailarinos e não tê-los apenas como um acessório erótico para jantar. "Estamos sendo considerados dançarinos intemporais deste mundo". Masha tinha consciência de que ela estava tomando liberdades extremas com esta dança e suas raízes culturais, mas sentiu fortemente que a dança era tão especial e tão merecedora de respeito que não importava o que ela faria. Todo este esforço seria lindo, esse foi o legado final que ela transmitiu aos seus alunos (RALL, R. O. 1997).

Carolena Nericcio começou a estudar com Masha Archer com a idade de 14 anos. Ela treinou com ela por sete anos antes de iniciar FatChance Bellydance (FCBD) em 1987. O FatChance é uma mistura das duas metodologias em termos de formato e estética. O formato de estilo tribal veio de Jamila: "... o coro, a criação do coro de meia-lua e os dançarinos que saem individualmente para fazer uma rotina de dois ou três pequenos minutos para depois voltarem para o refrão”. Eles seguem Jamila neste estilo de usar figurino pesado, mas com o estilo Masha de ter o olhar de fusão igual para todos. Carolena impressiona com seus alunos pela presença de palco mesmo exigente e personalidade em público que Masha e Jamila ensinaram, carregando sobre a intensidade do estímulo dos dançarinos de um ao outro o ulular vocal (zhagareets), durante uma performance (RALL, R. O. 1997).

Carolena Nericcio foi quem criou o estilo American Tribal Style (ATS) a partir dos trabalhos já fundamentados na experiência realizada com a sua professora. Junto ao FatChance Bellydance, Carolena estruturou todo um sistema de movimentação e deslocamentos, num caráter de coreografia improvisada, definiu e significou a postura básica do estilo e fundamentou a ideia de dança enquanto trabalho coletivo e de união e sinergia entre as bailarinas, características estas primariamente evocadas nos trabalhos de Salimpour e Archer como reflexo do movimento contracultural da década de 1960.  O Estilo Tribal Americano ou American Tribal Style (ATS), é uma a improvisação coordenada que é um sistema que parece uma brincadeira de "siga o líder" e baseia-se numa série de códigos e sinais corporais que as bailarinas aprendem, trupe a trupe. Esses sinais indicam qual será o próximo movimento a realizar, quando haverá transições, trocas de liderança, etc. Uma nova postura foi adotada pelas dançarinas desse estilo, inspirada no flamenco, com posições corporais diferenciadas visando dar maior amplitude aos movimentos (CELESTINO, L. C. 2008).

O ATS, hoje patenteado por sua criadora, reúne o trabalho destas três grandes bailarinas e professoras. Carolena sabe a importância de se manter fiel ao contexto cultural, mas ela sabe que o estilo tribal americano está aqui para ficar e que irá evoluir constantemente. Ela reconhece que os bailarinos têm a responsabilidade de trazer mais integridade para a dança e para manter o espírito das raízes culturais. No entanto, ela tem sentimentos opostos sobre como ela gostaria de ver esta dança evoluir nos próximos cinquenta anos. Parte dela gostaria de ver a dança teatral ganhar status respeitável no palco. Mas ela também percebe que uma parte importante seria perdida, porque a essência da dança é a interação com as pessoas "logo ali na rua”. Carolena encoraja sua trupe para se tornarem próximas, colaborarem com as outras e se fazerem poderosas e bonitas pra si e não para os outros. 

Muitos artistas continuam a criar e expandir este estilo, empurrando as fronteiras da dança do ventre com sua teatralidade, escolha musical, figurino e seleção local. Tribal Fusion continua a estar em um estado de evolução.

O Tribal chegou ao Brasil na década de 90 e aos poucos foi incorporando elementos da cultura brasileira nas coreografias e nos figurinos.  

Danças populares nordestinas como o Maracatu, o Coco, o Cavalo Marinho e o Afoxé são algumas das danças que hoje foram absorvidas ao repertório de movimentos de muitas companhias e bailarinas do país (BRAZ, P. A. 2012).

Em 2002, no Brasil, na cidade de São Paulo, a bailarina Shaide Halim cria a Cia. Halim Dança Étnica Contemporânea – a primeira trupe tribal do Brasil. Foi o início do Estilo Tribal Brasileiro. Desenvolvendo um trabalho baseado nestas modificações pelas quais o estilo passou, Shaide inova mais uma vez ao trabalhar com as danças de uma forma mais homogênea. A Cia. Halim teve seu trabalho coreográfico orientado pela composição musical, dando ênfase a uma ou outra modalidade de dança, seja oriental, indiana, africana ou brasileira, a partir do tema musical. Falar sobre Tribal é mostrar, com o corpo, a rede cultural dos povos do mundo (CELESTINO, L. C. 2008).

BRAZ, P. A. Shaman Tribal, 2012. Disponível em: . Acesso em : 10/10/2012. 

CELESTINO, L. C. Sementes, espelhos, moedas, fibras: a bricolagem da Dança Tribal e uma nova expressão do sagrado feminino. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2008. 

HALIM, S. Entrevista cedida em abril de 2008.

RALL, R. O. A History of American Tribal Style Bellydance. San Francisco State University, 1997. Dísponível em: . Acesso em: 02/04/2012.


SALIMPOUR, J. Anatomy of a Belly Dance Troupe. The Best of Habibi,1990. Vol. 3, n 3-4. http://thebestofhabibi.com/vol-17-no-3-spring-1999/from-many-tribes/. Visitado em 12/2012.