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sábado, 14 de novembro de 2015

FILMES - O Último Dançarino de Mao


Aos 11 anos, Li Cunxin foi tirado de uma pobre aldeia chinesa para estudar balé na escola de dança de Madame Mao, em Pequim. Em 1979, ele consegue entrar para a Companhia Houston Ballet durante um intercâmbio cultural no Texas, onde começa uma vida nova e livre. Os oficiais chineses tentam levá-lo de volta à China, mas manobras legais e o casamento com uma bailarina americana conseguem mantê-lo nos EUA. Para lutar pelos seus sonhos, porém, ele terá de abandonar para sempre sua família. 

Baseado na autobiografia* do bailarino chinês Li Cunxin,
*CUNXIN, Li. Adeus, China. Paraná: Fundamento, 2007. 400 p.

sábado, 16 de agosto de 2014

FILMES - SALOMÉ


Aida Goméz está ensaiando um novo ballet. A música, o set, o figurino estão começando a adquirir forma. De repente, vemos uma sombra na cadeira de rodas... E descobrimos que pertence a Herod, Tetrarca da Galiléia. Nós estamos na festa de aniversário dele. Herod quer que a sua enteada dance para ele, custe o que custar. Mas ela recusa, tendo olhos para um só homem chamado "O Batista". Salomé tenta seduzir o homem santo e falha. Frustrada, nervosa, ela concede a Herod o seu desejo, e faz a mais bonita, sensual, provocativa dança para ele. Herod aproxima-se dela, vitorioso, a tempo de ficar petrificado pela pergunta da garota: Salomé quer a cabeça de João Batista. 

Salomé é um musical, que usa dança e música para nos contar a história de uma tragédia que aconteceu há mais de dois mil anos atrás, na Galiléia, quando uma jovem mulher pediu a cabeça de um homem como pagamento pela sua dança. Salomé é uma história de ciúmes, sexo e morte. Mas também é a história de um moderno contador de história - ou talvez, uma história muito antiga. A dança e a música dizem mais que os diálogos, e o conto intencionalmente coloca de lado qualquer aspiração ao realismo. Salomé é uma experiência pura de cinema. É considerado, plasticamente, o mais belo filme de Carlos Saura.


Sinopse 02: Retrata o processo de criação de um espetáculo teatral baseado na história da personagem bíblica Salomé. O filme é dividido em duas fases: a preparação para a encenação de "Salomé" e a peça propriamente dita. O longa começa em forma de documentário, apresentando os bastidores da preparação do espetáculo. Durante os ensaios, o diretor passa instruções aos bailarinos sobre como devem se comportar em cena, enquanto cinegrafistas e iluminadores trabalham simultaneamente.



Elenco:

Aída Gómez - Salome
Pere Arquillué - El Director
Paco Mora - King Herod
Javier Toca - John the Baptist
Carmen Villena - Herodias 

Informações Técnicas
Título no Brasil: Salomé
Título Original: Salomé
País de Origem: Espanha
Gênero: Drama/Documentário
Tempo de Duração: 85 minutos
Ano de Lançamento: 2002
Estúdio/Distrib.: California Filmes
Direção e Roteiro: Carlos Saura
Music: Roque Baños

http://www.zebraproducciones.com/
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

FILMES - SÓ QUANDO EU DANÇO

(Only When I Dance, 2009)
• Direção: Beadie Finzi
• Roteiro: Giorgia Lo Savio (ideia), Christina Daniels (ideia)
• Gênero: Documentário
• Origem: Brasil/Reino Unido
• Duração: 78 minutos
• Tipo: Longa-metragem
• Sinopse: Os adolescentes Irlan e Isabela encaram um momento decisivo para a realização de seu grande sonho: dançar balé profissionalmente. Além das longas horas de treino diário no prestigioso Centro de Dança Rio, onde ganharam uma bolsa, os dois precisam superar a barreira econômica e social que os separa dos demais. Irlan mora numa favela no Complexo do Alemão e luta para conseguir terminar a escola. Já Isabela, habitante do subúrbio carioca, é negra e enfrenta o preconceito até de sua instrutora. Para estes dois talentosos jovens, sair do país é a única esperança de um futuro brilhante.



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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILMES - BALLET SHOES

BALLET SHOES, baseado em obra homônima de Noel Streatfeild, é ambientado na década de 1930 em Londres. É a história das órfãs Pauline, Petrova e Posy Fossil, que são adotadas pelo excêntrico explorador Professor Matthew Brown, e criadas por Sylvia, sua sobrinha altruísta. Quando o Professor desaparece, Sylvia tenta dar conta das despesas alugando quartos para hóspedes cujos atos mudarão suas vidas para sempre. As garotas são matriculadas na escola de teatro e começam a trabalhar nos palcos. Isso combina com os desejos da ambiciosa Pauline, que está ansiosa para atuar, e com a vontade de Posy, uma dançarina nata, mas Petrova, que deseja ser aviadora, sofre com a frustração e o desapontamento. As irmãs juram “colocar seus nomes nos livros de história” e esse desejo mantém a família unida a qualquer preço. A vida no mundo do show business é bem-sucedida, mas corações são partidos e lições aprendidas nesta encantadora história.


Publicado em 10/05/2013 - Esta pelicula fue realizada por la compania BBC basada en la novela de Noel Streatfeild Ballet Shoes


Ballet Shoes (película de 2007)


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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Um Pas de Deux nas calçadas

Quantos, mesmo que apressados, nos tiram para dançar em plena calçada?

Hoje, dou um largo sorriso, não mais de vergonha e tímido, como na adolescência. Faço um reverência com a cabeça, agradecendo. E sorrio, afinal, não é uma beleza poder dançar por obra do destino? Sem palco? Sem maquiagem carregada? No total improviso?

Um Pas de Deux nas calçadas.
Um Pas de Deux ao acaso.

(Sorrio, até mesmo quando escrevo). - Carine Würch

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terça-feira, 29 de julho de 2014

JAMILA - Artista Circense, Bellydancer, e a Mãe do Estilo Tribal Americano




Biografia

A influência de Jamila Salimpour na dança do ventre nos Estados Unidos é reconhecido por seus fãs e seus inimigos. Por um lado, ela estudou muito, treinou muito e codificou o que ainda não havia sido descrito no mundo ocidental. De outro lado, ela introduziu um folclore popular e aspecto circense em seu trabalho, que ela nunca dizia ser autêntico, mas que muitos puristas condenam como enganosa. No entanto, se alguém toma a posição de que a dança do ventre é entretenimento, e os artistas estão aqui para atestar, a incorporação do exótico figurino, música e teatro feitos por Jamila Salimpour, pode muito bem ter salvo a dança do ventre da extinção, como o Ballet Russo salvou o ballet.

Jamila era uma dançarina profissional com sua própria banda, quando a primeira bem sucedida boate "Oriental' abriu em Los Angeles no início de 1950: The Greek Village. Este local contratou músicos de Jamila, mas não ela, alegando que seu bedlah* era ousado. Então Jamila ia até lá como cliente, fazia avaliações cuidadosas sobre clientela e entretenimento. Em um artigo publicado em Bhuz, Jamila descreveu o efeito de um determinado cantor escandalosamente eficaz tinha sobre o fluxo de caixa da vila grega. "Assim como na Feira Mundial de Chicago, em 1893, quando os dançarinos, ofenderam a sensibilidade do que era considerado a "norma", os clientes do Greek Village, vinham em grande número para ver o ofensor em primeira mão, a fim de passar de forma mais eficaz seu julgamento. A caixa registadora mostrava os lucros, os manifestantes ficavam a maior parte da noite para assistir Betty, e verificar se a fofoca era realmente verdadeira. Ela nunca os decepcionou." Link completo

Jamila tinha começado a ensinar no início de 1950. Quando seu segundo casamento terminou, ela conseguiu tanto dançar e como aulas no Fez, uma discoteca popular. Devido ao problemas que os restaurantes árabes estavam tendo problemas com dançarinos do exterior, que estavam entrando ilegalmente no país, e que estavam completando a sua renda como prostitutas, o Fez concordou em deixar Jamila proporcionar-lhes bailarinas americanas que fariam somente isto: dançar.

Em 1960, Jamila mudou para São Francisco, onde teve mais oportunidades para se apresentar. O público agora era composto especialmente por homens americanos, e não árabes, e o platéia americana estavam lá por causa da dança, não pela música ou pelo canto (o que eles não entendiam). Eles esperavam uma bailarina no palco o tempo todo, o que acabou transformando o conjuntos originais de 15 minutos em conjuntos de desgastantes 45 minutos. O lado positivo foi que Jamila foi exposta a muitos estilos regionais de dança, e absorveu-os como uma esponja. Os snujs (zills) tornaram-se um interesse especial para ela.

Em 1965: casou-se novamente, e novamente com um marido persa, que não permitiria que ela para dançar publicamente. Jamila, agora grávida, continuou a ensinar em tempo integral. Ela tinha enormes aulas (mais 300 em um ginásio de uma só vez). Parte de sua marca constituía em: chegar totalmente vestida e maquiada como uma apresentação. Sua impressionante aparência "dark" e seus dramáticos figurino, fizeram dela uma presença dominante. Ela favorecia o figurino folclórico  ao invés do cabaret tradicional para o efeito fins teatrais: fotografias dos anos 60, com freqüência a retratam no que se tornou sua assinatura, vestidos com Assuit e headpieces dramáticos.


Enquanto a filha Suhaila crescia, Jamila incorporou-a em sua vida de dança, ensinando-a a dançar, se apresentar e eventualmente, a ensinar. Jamila começou a codificar os passos que ela tinha aprendido, que facilitavam o ensino, e comprovaram-se úteis, quando a cena da dança do ventre começou a incorporar coreografias com música de grandes orquestras egípcias, e quando os vídeos se tornaram um forma popular de ensino. As coreografias passaram a ser escritas e compreendidas pelos alunos; os vídeos tinha uma maneira de dar nome àquilo que estava sendo ensinado. A terminologia de Jamila foi eventualmente absorvido pela cultura ocidental da dança do ventre e é usado como um padrão entre muitos professores e artistas de hoje.

No final dos anos 1960, Jamila formada a trupe tribal Bal Anat, inicialmente como uma forma de estruturar a dança do ventre que estava ocorrendo no Renaissance Pleasure Faire


Os donos da Feira estavam ameaçando expulsar as bailarinas de dança do ventre. A trupe foi extremamente bem-sucedida, realizando turnês com até quarenta bailarinos e músicos a qualquer momento. Jamila incorporou sua maneira única de compreensão do figurino étnico, dança Oriente Médio, música, dinâmica de circo com a excitação do público americano, para criar esta, distintamente americana, forma de arte: a dança do ventre tribal, que ela nunca representou como algo diferente de fantasia, mas que ficou em muitos imaginários como a dança do ventre "real". 


Do seu discurso apresentado em 1997 no Conferência Internacional sobre a Dança o Oriente Médio : "Eu ouvi um par de novas expressões, desde meu retorno a Berkeley. Eles são: East Coast Tribal, West Coast Tribal e o Ethnic Police, uma expressão que eu acho muito divertido. Eu não me oponho a qualquer coisa, desde que seja entretenimento. "


Referências:

* Bedlah - O bedlah é um traje árabe normalmente usado por mulheres. A palavra bedlah é o árabe para "traje". No mundo da dança do ventre, o termo refere-se simplesmente bedlah ao traje que um dançarino usa. Mais comumente é usado para se referir ao conjunto combinado de sutiã e cinto dançarinos usam, mas tecnicamente ele abrange todas as partes do traje da bailarina, assim, como a jóias, headband, saia, calça e véu. Esta é muitas vezes referido como um Bedlah completa. Ocasionalmente, também se refere a apenas uma parte do traje, como o cinto altamente ornamentado que dançarinos tribais usam, podendo ou não ter um sutiã combinando. O termo Bedlah pesado refere-se às partes mais robustas do traje da bailarina, o sutiã, cinto e jóias e o Bedlah leve termo inclui as porções fluxo de tecido do traje, a saia, calça, colete, choli e / ou véu. Bedlah originou-se no imaginário ocidental, de pintores vitorianos e foi adotado por bailarinos que atendiam ao público estrangeiro, que esperavam este visual. Muitos bailarinos também adotram o visual simplesmente porque gostavam dele, e ele sobreviveu para se tornar o traje mais popular para os dançarinos orientais em todo o mundo.

Tradução livre de Carine Würch

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domingo, 5 de janeiro de 2014

BOLSHOI - Bailarina Brasileira no Ballet Russo

"Numa dança de dois como a nossa, falar muito é dispensável, basta ouvir a música, olhar nos olhos e sentir." (Mariana Gomes)

Um lindo relato da trajetória da bailarina brasileira Mariana Gomes no Ballet Bolshoi. Peguem um lenço. 


Pas de deux – em francês, passo de dois. E, como toda bailarina sabe, no começo de um ensaio de pas de deux pouco se conhece de seu partner, parceiro. Mesmo que abrace e conviva e trabalhe junto, pouco se sabe dele, e com o tempo, mesmo que com poucas palavras, a troca de olhares, o suor, a tentativa de vencer juntos todos os passos e desafios da dança, fazem você conhecer o seu parceiro sem sequer muito falar. E próximo à apresentação, depois de muito ensaio, os parceiros de um pas de deux se sentem tão próximos como se fossem melhores amigos de muitos anos.
Ao chegar a Moscou, oito anos atrás, minha professora russa do Brasil, Galina Kravchenko, me aconselhou a frequentar as aulas de clássico da Professora Svetlana Adyrkhaeva, às 10 da manhã – a aula mais disciplinada, e conhecida como uma das mais rígidas do Teatro.
Svetlana Adyrkhaeva no palco, como bailarina, em "Uma Lenda de Amor", de Arif Malikov
Comecei a frequentar suas aulas e, como num começo de pas de deux, mal sabia quem era quem, quem era Svetlana, suas alunas russas com linhas maravilhosas que ficavam na barra central, primeiras bailarinas e meninas do corpo de baile, eu mal conseguia me concentrar nos exercícios passados, tamanha a minha fascinação por tudo a que eu assistia durante as aulas.
Ela sabia de onde eu era, sabia que pouco eu entendia russo, mas não deixava de ser rígida comigo. Com o tempo fui entendendo quem ela era, e um dia ela me disse: “Você não entende o que eu estou falando em russo? Eu também não entendia russo quando cheguei aqui. Você sente saudade de casa? Eu também sentia quando vim para cá.”
Eu não entendia o que ela quis dizer, quando descobri que ela era da Ossétia, região caucasiana que fazia parte da União Soviética, onde eram selecionadas crianças que viviam no campo, no interior, pelo seu físico. Eram enviadas as mais talentosas para aprender balé aos sete anos de idade em São Petersburgo. E foi assim que começou a jornada da minha professora. Ela entrou num trem com a mãe, a mãe saiu no meio do caminho e a deixou chorando dentro do trem, e o destino final foi São Petersburgo, onde ela entrou na Escola Coreográfica Vaganova, e saiu com o papel de Odette e Odille oito anos depois, convidada a dançar no Teatro Bolshoi de Moscou.
Hoje com 75 anos, ela foi aluna de Galina Ulanova e Marina Semionova, e é um símbolo de disciplina e determinação dentro do Bolshoi, fazendo com que todas as suas alunas sejam vistas da mesma forma. Pouco importa a ela em que papel – valsa do corpo de baile ou primeira bailarina de cisne branco –, ela sempre vê suas alunas, faz correções e briga por elas, defendendo cada uma com unhas e dentes.
Entrar na aula de Svetlana Adyrkhaeva não é fácil. É preciso frequentar sem ausência nenhuma, explicar o motivo de cada vez em que você faltou, usar meia rosa como no palco, todos os dias, falar quando sente dor, e onde e porquê, avisar quando está menstruada, avisar quando vai viajar ou se ausentar. Cada uma tem seu lugar na barra e deve perguntar a ela se pode mudar. Usar sapatilha sempre limpa e com fitas costuradas, saia clara e curta para que as pernas sejam vistas. Se sair mais cedo da aula, deve avisar a ela se tem ensaio. Nunca frequentar aula de outro professor. Sim, não é fácil permanecer neste regime quando se sabe que dentro de um teatro existem varias aulas, cada um faz aula quando pode e com o professor que deseja, com a roupa com que se sente confortável, somente para aquecer e manter a forma, mas não no caso da aula de Svetlana Adyrkhaeva.
Receber uma correção dela, ou um elogio, era motivo de alegria para a semana toda. Não só para mim, mas para qualquer novata que chegasse a frequentar sua aula. Lembro quando pela primeira vez dancei o balé “La Bayadère”, que terminava às 23 horas. Estava muito cansada depois do quarto espetáculo e não consegui chegar a tempo no teatro no dia seguinte para a aula dela às 10 da manhã. E fui à aula das onze com outro professor. Ela me repetiu isso por uns dois meses, lembrando aquele dia em que eu não consegui acordar e estava muito cansada, e lembro que eu não me conformava de ela não entender que eu queria mas não conseguia, fisicamente cansada, fazer sua aula. Por muito tempo frequentei sua aula, sem vontade e com a sensação de que não aguentaria tão forte exigência. Sabia que a maioria do Teatro frequentava outras aulas e não passava por esse tipo de situação. Mas sabia que as mais disciplinadas estavam ali, e, se elas ainda frequentavam esta aula, motivo teriam...
Anos e anos se passaram, correções e correções, e ela já fazia parte da minha vida. Nosso encontro de cada manhã era sem muitas palavras, mas ela já fazia parte da minha vida. Nos dias em que chegava triste e cansada, nos dias em que sofri com a doença do meu pai, tudo ela percebia, tudo ela sabia e com poucas palavras comentava: força, não se entregue. E cada palavra dela para qualquer bailarina tinha muito significado.
Este ano ela completou 75 anos, e do Teatro ela ganhou um espetáculo só seu. Onde ela mesma escolhe o elenco e o repertório, porém, claro que com a aprovação do diretor atual, Serguey Filin.
Sabendo que sua aula é frequentada na grande maioria por primeiras bailarinas e solistas, sua noite foi repleta de grandes pas de deux e solos para suas alunas. Ninguém mais subia ao palco naquela noite, além de suas solistas preferidas. Foi com muita surpresa que vi meu sobrenome no mural entre uma das quatro solistas para o “Grand Pas de Raymonda”. A parte considerada solo, em que no espetáculo de “Raymonda” normalmente dançam grandes nomes, mas não o meu. E na sua noite de Gala, lá estava meu nome entre três solistas.
Ela confiou em mim. Sabendo de tal responsabilidade, eu lhe agradeci, e ensaiamos todos os dias atá a grande noite do seu espetáculo. Ao meu lado três solistas que sempre dançam este Grand Pas de Deux como se estivessem bebendo água, já faz parte do dia a dia delas, mas não do meu, artista do corpo de baile. Ela sabia disso, o meu medo era enorme, e o que era maior que o medo era a certeza de que, se ela confiou em mim na noite mais importante de sua carreira, com certeza tinha motivo.
Esse dia chegou, 27 de outubro de 2013, um domingo, plateia cheia e meu coração disparado, o nosso número era o primeiro. A minha ansiedade era muita, não via a hora de dançar e agradecer-lhe por tudo. Mas sabia que depois do espetáculo teríamos um coquetel em sua homenagem, com flores, champanha, caviar, discurso, pessoas importantes, e chegar até ela seria mais que impossível. Resolvi então entregar flores junto com uma carta, em russo, tentando explicar em palavras tudo que senti ao ser escolhida e ao subir ao palco naquela noite.
A carta foi entregue, possivelmente não lida, era um mar de buquês de flores, um mar de fãs e homenagens a ela. E depois do espetáculo as suas alunas mal conseguiram vê-la.
Mas o trabalho continua, e no dia seguinte tivemos sua aula como sempre pela manhã. Cada um no seu lugar específico na barra, com sua saia, meia rosa, disciplina de escola. Ela chega pontualmente na sala e faz sinal, e... a pianista começa a tocar, e nosso primeiro exercício começa pontualmente o grand plié. Todos concentrados, se olhando no espelho como se nada tivesse acontecido no dia anterior, e ela se aproxima de mim durante o exercício e diz: “Mariana li sua carta, muito tocante.” Eu continuo o exercício me olhando no espelho, não sei o que falar. Ela diz depois de uns segundos, olhando nos meus olhos, “muito obrigada”. A aula continua... tendu, jeté... saltos... ensaios...
Na semana seguinte recebo uma ligação dela no meu celular, ela me convida para jantar num restaurante próximo à sua casa, na Rua Arbat. Restaurante antigo, parecido com um teatro, chamado Casa do Artista. Diz que será um jantar de agradecimento da sua noite, e que convidaria suas alunas mais próximas e pessoas importantes para ela.
Chego às 18 horas em ponto. Várias pessoas mais velhas com medalhas no peito da União Soviética, títulos de Artista do Povo, bailarinas solistas e primeira bailarina. E, ao modo russo, começa o jantar, com brindes em homenagem a Svetlana, com fatos e histórias de sua vida. Quando ouço um brinde de uma amiga dela que diz que todos falam de sua carreira brilhante e de como ela era única no palco, como Odette, Kitri, etc... Mas poucos lembram o começo de sua história, o quanto Svetlana sofreu, sem mãe nem pai, sozinha em São Petersburgo e mais tarde em Moscou, enfrentando sozinha problemas como doenças e hospitais, saudades dos pais, sem ninguém por perto e sem falar bem a língua russa. Todos escutam e brindam, meus olhos se enchem de lágrimas ao perceber que naquela mesa só uma pessoa sabe o que ela passou e entende do que se trata aquele brinde. Não pude conter minhas lágrimas, apesar de saber que na Rússia isso não é comum – todos, frios e fortes, guardam suas emoções. Ela estava sentada muito distante de mim e das suas alunas, e com certeza pensou na mesma coisa que eu. E, do outro lado da mesa, os olhos dela procuram os meus e ela me olha nos olhos como no dia em que me agradeceu a carta. Finjo não chorar. Lembro as palavras da minha professora russa no Brasil: “Vocês brasileiros são muito emotivos. Não chorem, não mostrem a ninguém seus sentimentos, no teatro não se chora.”
Segurei minhas lágrimas, virei meu rosto e continuamos o jantar com brindes, risadas, histórias de seus amigos da Ossétia, medalhas no peito e títulos importantes.
De repente Svetlana se levanta, e é claro que a mesa toda fica em silêncio. E o brinde agora seria para suas alunas. Ela diz: “Minhas alunas são tudo para mim hoje. Vocês sabem que meu marido faleceu há dois anos, e que a minha vida é o teatro, dedicada às minhas alunas, é o que me resta. Eu conheço cada uma, e cada uma delas, como no exército, não quer ser só um soldado, quer ser general, e cada uma com seu caráter diferente. Eu tento explicar a elas que todas não podem ser generais, uma será soldado, outra será comandante, e assim é o teatro... Uma, primeira bailarina; uma solista; outras, corpo de baile. Mas o que importa é fazer o seu trabalho bem feito. Quero aqui falar da minha aluna brasileira, que me escreveu uma linda carta, e nós sabemos a semelhança das nossas histórias. Mariana Gomes chegou do Brasil e mal falava russo, até hoje frequenta a minha aula. Queria que vocês soubessem a pessoa que esta menina é. Ela é incrível. Dançou na minha noite um quarteto, e dançou muito bem. Cuida do instituto onde estuda na minha aula, para ser professora assim como eu, e será. Ela um dia voltará para o seu Brasil com muito orgulho, assim como eu tenho orgulho da minha nacionalidade, e não estou mandando você embora, não. Você já é nossa, faz parte do nosso Teatro, mas um dia você terá suas alunas no Brasil, assim como eu tenho as minhas alunas, e você vai amá-las, assim como eu amo vocês.”
A essa altura do brinde, o choro já não conseguia mais ser escondido. Todos na mesa olhavam para mim e aplaudiam tão alto que ninguém ouvia meus soluços. Levantei-me, abracei Svetlana e chorei como uma criança no colo de sua mãe. E jamais esquecerei essa noite. Foi uma emoção carregada por oito anos, contida dentro de mim por quase uma década e apenas uma noite de poucas porém corretas palavras. E assim como o grand pas de deux dançado em sua noite de homenagem, assim permanece a nossa história, um pas de deux em que cada minuto que se passa de ensaio, com olhares e poucas palavras, esforços e vitórias, os parceiros vêm se conhecendo cada dia mais. Onde falar muito é dispensável. Numa dança de dois como a nossa, falar muito é dispensável, basta ouvir a música, olhar nos olhos e sentir
Obrigada, Mariana. Obrigada, Svetlana.

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