quinta-feira, 7 de agosto de 2014

TRIBAL NO BRASIL - RAPHAEL LOPES

TRIBAL NO BRASIL - RAPHAEL LOPES
Dançar para mim vem sendo uma atividade lúdica há mais de uma década. Mas como bom virginiano detalhista que sou, ainda que lúdica a dança sempre foi por mim levada muito à sério.
Começando aprendendo diversos estilos, e tendo a oportunidade de ainda cedo participar de companhias de dança onde fiz amizades eternas e tive o prazer de viajar, participar de festivais e competições.
Porém em 2004 a dança ganhou um contorno ainda mais sagrado para mim, de modo que tive um forte chamado para a dança clássica indiana. O Odissi rendeu minha alma por inteiro, e durante quase 10 anos esse foi minha única modalidade. Tive a oportunidade de viajar para a Índia e constatar que o Odissi é realmente a forma mais clara pela qual posso me expressar, e que certamente irá me acompanhar eternamente nos palcos.

Mas tenho um espírito inquieto, livre, pulsante. Não que a dança clássica não estimule em mim esses aspectos, mas depois de mais de um ano lecionando e convivendo na Escola Campo das Tribos, me identifiquei com o estilo Tribal – com a musicalidade, a irreverência, a construção cênica – Tudo.

Decidir começar a aprender o Tribal exigiu de mim um pouco de coragem. Sim, pois depois de consolidar uma carreira no clássico, assumir um papel de aprendiz num estilo tão diferenciado foi um desafio. Também foi um desafio reconstruir novas formas de expressão, principalmente nos movimentos de quadril.

Algumas pessoas do meu círculo de convívio estranharam um pouco a minha decisão, principalmente por soar tão mais “feminino” uma dança que envolve tantos elementos da dança do ventre. Mas dançando desde sempre, e lidando com opiniões tão distintas a respeito do meu trabalho, isso foi apenas um detalhe. Detalhe esse que se diluiria no momento em que eu subisse em cena, e mostrasse que antes da dança ser um trejeito adotado é sim uma expressão única que cada um adquiri com trabalho e dedicação.

Trabalho e dedicação que desenvolvi ao lado de uma grande professora. Rebeca Piñeiro sem sombra de dúvidas foi minha melhor escolha no sentido de reaprender a dançar. Soube me deixar a vontade, e me fazer conhecer o meu corpo através de um novo viés. Soube me fazer entender e sentir cada movimento, de forma sutil. Me lembrou muito a forma orgânica como aprendi a dança indiana na Índia, e no meio do processo de aprendizado ela adquiriu certamente um lugar de destaque no meu amadurecimento enquanto artista.

Nossa apresentação no Festival da Escola Campo das Tribos, minha estréia oficial no ATS não teve nenhuma pretensão. Não tive pretensão de ser o primeiro bailarino de ATS se apresentando no Brasil, ou de ser o primeiro bailarino dançando esse estilo na escola. Não tive pretensão de mostrar nada para ninguém na platéia. O que eu levei pro palco foi o mix de sensações e descobrimentos que desenvolvi em sala. E acho que quem assistiu pode ver estampado no meu rosto a alegria que foi aquele momento.
Acho que isso é o Tribal.

A forma profunda como expressamos artisticamente o nosso Ser. E aqui nem pontuo o diferencial de ser um homem dançando tribal. Até pensei em abordar todo o meu texto por essa perspectiva, mas quando dançamos nos libertamos de tudo, até do gênero. Somos consciência e ritmo, alegria e entrega. E a Tribo não está apenas no palco, mas é o todo que também envolve a platéia.

Ter escolhido o ATS foi fruto da minha virginiana mania de aprender tecnica, e de assegurar uma base firme e sólida para o meu início no Tribal. Mas o que aprendi no caminho é que o Tribal é um caminho sem volta, no qual nos jogamos entre shimmies e hand floreos, com um sorriso enorme estampado no coração.

Obrigado Rebeca por ter trazido um novo alento à minha arte, obrigado meninas que me acompanham nas aulas, e obrigada Atelie TribalSkin por vestirem a minha idéia.