quarta-feira, 6 de agosto de 2014

KAJIRA ENTREVISTA CAROLENA NERICCIO - PARTE 1

"A IGNORÂNCIA É UMA VIRTUDE"

Uma entrevista com Carolena Nericcio, Instrutora e Diretora da FatChanceBellyDance de São Francisco. Entrevista conduzida por Kajira Djoumahna, em 06/01/96. 










Há quanto tempo você dança? Por mais de vinte anos, desde 1974.

O que trouxe você a sua primeira aula de dança do ventre? Eu não sei. Sempre que me perguntam essa questão, cada vez eu respondo de forma diferente! Acho que eu só queria dançar. Eu era apenas uma criança muito tímida vivendo nos subúrbios com os meus pais quando eu encontrei uma aula de dança do ventre em São Francisco. Eu pegava o ônibus duas vezes por semana, de uma ponta da linha à outra, só assim eu poderia chegar lá.

Você experimentou quaisquer outros estilos de dança naquela época? Não. Além de ser muito tímida, eu era autoconsciente sobre meu corpo (Eu era 44) e meu peso. Eu dançava muito pela casa, mas era tímida demais para seguir algo formal.

O que te atraiu a ter Masha Archer como sua professora? Você já a viu? Se você pudesse conhecê-la pessoalmente, você saberia o que é. Ela é a mulher mais poderosa que já conheci em minha vida. A maneira que eu evoluí; força e presença é mais importante do que ser bonita. Parece que supõe-se que as mulheres sejam tranquilas, bonitas e femininas. Esse ideal realmente nunca me atraiu. Esta mulher (Masha) era forte e segura de si, e incrivelmente capaz. Eu era arrastada pelos meus pés! Eu me lembro de ir à minha 1ª aula, sendo esta pequena de 14 anos de idade sem habilidades sociais, nenhuma idéia do que estava acontecendo, e eu decidi "Eu quero ser como ela!". Uma coisa que me ocorreu anos mais tarde foi que ela não era uma dançarina do ventre", ela era uma artista. Ela era uma artista visual. Ela tem um toque de Midas, quando se trata de criar arte. Eu acho que ela só se descobriu junto  a dança em algum ponto, e decidiu dançar por algum tempo. O que ela fez com a dança foi simplesmente incrível. Eu não acho que ela estava totalmente preocupada se algo era tradicional ou considerado culturalmente apropriado, ela só tinha um senso de humor, tempo, ritmo, e do que fazer.

Eu sei que a professora de Masha era Jamila Salimpour. Você acha que o estilo de Masha ou o seu Estilo Tribal Americano tem a ver com o Formato de Salimpour? Ah, eu acho que tem com certeza! Eu nunca conheci a Jamila, e eu nunca estudei com ela, mas de tudo o que eu posso ver das pessoas que estudaram na escola de Jamila, é definitivamente a mesma base. Eu não vi exatamente o que aconteceu, mas eu acredito que Masha era uma artista que estudou com Jamila, viu o que Jamila estava fazendo, e colocou  sua marca particular em cima daquilo. Eu vi o que Masha estava fazendo e eu coloquei minha marca em cima disto. Eu ainda posso ver as ligações claramente. Eu li entrevistas com Jamila, e prestei atenção em como ela colocava as idéias em conjunto, e tudo faz sentido. Ela (Jamila) veio de uma base circence, e em a apresentação era realmente um espetáculo. Masha era uma artista que realmente estava interessada em apresentar uma idéia , então eu posso ver de onde eu extraí  minha teoria de apresentação, e eu com certeza creditaria isto à Jamila. Talvez um dia eu conseguirei conhecê-la. Eu gostaria de agradecê-la em pessoa!

Quando você notou pela primeira vez que seu próprio estilo pessoal era tão diferente? Mesmo que ele tenha muito em comum com esses outros estilos sobre o qual nós falamos, ainda é muito seu.  Eu não acho que eu percebi até que as pessoas começaram a me dizer isso! Faço esta piadinha quando as pessoas me perguntam sobre onde aprendi dança do ventre, que fui criada "em uma ilha". E, o que eu quero dizer é que, eu era muito jovem quando comecei a estudar com Masha. Eu não tinha absolutamente razão nenhuma para questioná-la ou procurar outra coisa, então eu freqüentei as aulas dela 2 ou 3 vezes por semana durante pelo menos sete anos. Eu dancei em sua trupe, e era muito próxima de sua família. Eu a absorvia porque estava obcecada com como ela era glamorosa deste modo realmente forte que ela é. Eu só queria seguir seus passos. Então eupratiquei esse tipo de idéia Indiana Oriental tradicional, onde você encontra seu Guru e faz tudo o que eles dizem. Nunca imaginei que ela tinha um "estilo", eu apenas pensava que ela era o que uma dançarina do ventre era. Então, quando eu comecei a ensinar minhas turmas, eu comecei dizendo tudo que ela tinha dito. Então as pessoas começaram a me fazer perguntas "De onde esse passo vem?" e "Qual é a diferença entre o Egípcio e o Árabe", e eu pensei: "Eu não sei! Estou apenas dizendo o que minha professora disse". Então eu tive que começar a fazer pesquisa, e quando eu fiz isso, comecei a entender certas coisas. Então eu comecei a acrescentar coisas minhas. De certo modo, este estilo que as pessoas vêem distintamente como eu quem criei, exceto pra mim, é apenas o que minha professora me ensinou. Portanto, em termos do estilo físico real da dança, é o mesmo, mas em termos de como a trupe (FatChance) usa a coreografia, houve um certo momento onde minhas dançarinas começaram a ter uma conversa comigo. Tal como: "Seria mais fácil para acompanhar se nós estivermos todas de frente em um ângulo", "seria mais fácil se o coro criar uma meia-lua" ou "seria mais fácil se a pessoa da liderança desse um passo a frente". Eu estava aberta a elas, porque eu queria que nós fôssemos bem sucedidas. Eu queria que elas me dissessem o que precisavam fazer para ter sucesso. Então a idéia da trupe toda sobre como nós faríamos a coreografia, como nós faríamos a improvisação, e como nós avisaríamos uma a outra começou a evoluir a cerca de 5 ou 6 anos atrás. Mas, para mim, o estilo dos passos ainda é o mesmo, talvez com um pouco mais de força, porque sou mais fisicamente orientada  do que Masha era.

Você poderia explicar o que torna o Estilo Tribal Americano diferente da abordagem da trupe "comum"? Com todo o devido respeito a todas as outras professoras e estilos lá fora, eu acredito que é preciso haver mais de uma distinção entre o que é cabaré e Oriental, o que é folclórico, e o que é essa idéia nova chamada estilo Tribal. Porque, o que as pessoas tendem a fazer é se colocar em um figurino étnico e ainda fazer passos de cabaré, então chamá-lo folclórico ou tribal. Não é assim! Os passos folclóricos são muito diferentes dos nossos e do Oriental. O Oriental parece ser muito mais leve e mais adequado para uso como um solo. Por exemplo, os gestos podem ser adaptados para uma pessoa, enquanto que o folclórico parece mais adequado para danças em grupo. O estilo Tribal é completamente diferente pelo fato de que ele combina esses dois estilos juntos. Você não terá o visual "tribal" até que você estude os padrões de passos e postura corporal.

Uma coisa que torna a FCBD destacada é a sua capacidade de improvisar como uma trupe. A fim de fazer isso, todos os  movimentos dasdançarinas devem ser muito precisos, por exemplo, todos os círculos de peito devem se mover para a esquerda, seus movimentos são sempre conduzidos com o quadril direito, etc. Tudo isto é por uma razão - seria impossível acompanhar os líderes de outra forma durante a improvisação em grupo. Você está certa. Essa é uma das coisas que ou atrai as pessoas ou não. Quando eu começava  a demonstrar que "apenas o braço esquerdo sobe", ou "sempre vira-se à esquerda", as pessoas ou gostavam disso porque é disciplinado e elas podem se lembrar, que é exatamente porque nós fazemos isso, ou elas sentiam como se eu estivesse impondo algum tipo de restrição indesejada sobre elas - o que eu não estava! Essas pessoas provavelmente seriam boas solistas porque elas estão dispostas a mover-se em diferentes direções, elas estão constantemente criando. Isso é ótimo, mas outra pessoa não pode seguir essa improvisação. Então o que nós fizemos foi diluir o movimento de cabaré para torná-lo mais amplo e muito mais repetitivo. Algumas pessoas vêm para minhas aulas e estão realmente entediadas fazendo a mesma coisa semana após semana, muitas e muitas vezes. Para estas pessoas há todo um outro mundo lá fora, mas para pessoas como eu que precisam do movimento repetitivo para aumentar a qualidade muscular, você pode contar com isto! Quando você vê outra dançarina fazendo isso, você sabe que está fazendo a mesma coisa, e você pode deixar de contar, ou ter que olhar para ela. Você sabe que quando você vê um certo gesto de braço, ele está acompanhando um certo passo de pé. Você já está fazendo ele, então você pode pensar sobre qual é o próximo. Isto é com certeza um processo diferente. 


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Uma entrevista com Carolena Nericcio

Tradutora: Suzana Guerra | Revisão: Aline Oliveira | Edição: Ana Harff


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