domingo, 9 de agosto de 2015

KAJIRA ENTREVISTA CAROLENA NERICCIO - PARTE 4

"A IGNORÂNCIA É UMA VIRTUDE"

Uma entrevista com Carolena Nericcio, Instrutora e Diretora da FatChanceBellyDance de São Francisco. Entrevista conduzida por Kajira Djoumahna, em 06/01/96. 





No ano passado, em sua entrevista na Revista Whole Earth, tornou-se público que você tem Esclerose Múltipla. Por favor, conte-nos sobre como a doença afetou sua vida. Bem, é diferente a cada dia. Quando eu fui diagnosticada pela primeira vez, tomei a decisão de parar de costurar e começar a dançar em tempo integral porque eu não tinha certeza de quanto tempo seria capaz de dançar. Eu estou contente que eu fiz isso, mas realmente estou ficando cansada. Então agora estou começando a pensar no futuro disso até. É muito cansativo; alguns dias eu não me sinto bem me apresentando ou ensinando, mas sempre me sinto melhor quando faço. No ano passado, eu levei muito tempo afastada, mas comecei a me sentir desconectada e decidi que queria voltar. Eu não posso adotar o mesmo tipo de espetáculos que envolvem direção por horas e demonstração ou apresentação em algum ambiente de feira empoeirado e quente onde você tem que se vestir em um cubículo e há muitas pessoas ao redor. Quando esse tipo de situações aparece, eu sinto que eu queria bater em retirada. Eu também andei  perdendo muito a cabeça. Agora eu sei quando simplesmente ir embora e não descontar nos outros. Eu vivo cada dia como se fosse o último e tenho cuidado para não me sobrecarregar. Os sintomas vêm e vão.

Como você continua em boa forma, apesar de tudo isso? Eu passo pelo menos uma ou duas horas por dia na academia. Venho me exercitando durante dez anos. Sempre levantei pesos e admirava fisiculturistas e a disciplina necessária para eles chegarem onde estão. Com certeza me influenciei por fisiculturistas mulheres. Eu também realmente gosto de ir à academia, não é uma obrigação para mim. Às vezes, o único momento particular que eu tenho é na academia. Minha dieta é muito rigorosa também, evito gordura, sou uma vegetariana e evito pratos elaborados porque embrulha meu estômago. Gosto de comidas simples que são simples e fáceis de digerir. Eu tenho um tipo de transtorno alimentar intenso, e estava realmente feliz por ter me imposto a dieta da MS (Esclerose Múltipla), porque é o que comeria por escolha de qualquer maneira. Mas agora quando as pessoas dizem "oh, você pode comer isso", eu posso dizer "não, eu realmente não posso" e elas me deixarão em paz.

Você tem algum conselho geral para as alunas de dança do ventre? Mantenha-se ereta e sorria! Em geral, sinto que as pessoas poderiam ser mais fortes. Estou desalentada com a quantidade de condicionamento físico (ou falta de condicionamento) que muitas dançarinas mantêm depois de anos de apresentação ou estudo. Não estou dizendo que você tem que ser uma fisiculturista, ou tão magra quanto uma bailarina, mas eu gostaria de ver as mulheres levarem este estilo de dança e a si mesmas mais a sério e se condicionarem com vigor e força. Também menos competitividade, por favor! Há muito espaço para todas. O mundo está interessado em ter um monte de dançarinas do ventre, mas as dançarinas tornam seu mundo mesquinho competindo tanto. Parem com isso, e todas vocês terão trabalho.

E um conselho para as professoras? 
Eu não tentaria dar conselhos a outra profissional. Direi apenas que quanto mais consistentes e generosas nós formos, mais as pessoas pretenderão vir e estudar, ao invés do contrário.

Algum conselho para artistas, sejam profissionais ou aquelas que estão começando? Novamente, eu não preciso dar conselhos às profissionais, mas para novas artistas eu diria: tentem conseguir uma visão panorâmica do que está acontecendo durante a sua apresentação. Tente parar de pensar em si mesma. O público pode perceber o medo. Você tem que ser capaz de se abrir ao público sem se prender a ele ou procurar por aprovação. Olhe-o e envolva-o sem distinção. Aprenda a abrir-se e se expressar. Cometa muitos erros. Esteja disposta a cometer erros e esteja aberta à crítica. Faça um trabalho construtivo com a crítica que você receber. Eu acho que muitas artistas em formação se abalam e ficam tão arrasadas com a crítica que recebem que elas se fecham e param de ouvir às pessoas. É estar fadada ao fracasso! Leve-a para casa e pense sobre isto. Veja o que você pode fazer para melhorar. Cultive a participação da sua professora, pois ninguém pode lhe dar o conselho que sua professora pode. Se você se isola, você pode estar perdendo uma enciclopédia inteira de conhecimento. Chegar ao palco sem o apoio da sua professora é não receber o restante da sua educação.
 
O que você vê como o futuro da dança do ventre na América? É bom ver pessoas tentando coisas novas. Eu acho bom que as pessoas estejam aproveitando o fato de que são Americanas que podem empregar um estilo de dança Árabe e aplicar suas idéias a ele sem sentir como se estivessem sendo inadequadas. Me parece que todos os árabes que entrei em contato estão encantados com o que estamos fazendo com sua dança e não parecem ter qualquer problema com as interpretações Americanas dela. Eu gosto da aproximação de mente aberta. Gostaria de ver a dança ser promovida em uma audiência pública em geral mais convencional. De modo que quanto mais pessoas estiverem expostas a ela, mais pessoas poderão ganhar a vida com ela, e todas as dançarinas que desejam encontrar locais para se apresentar sem o estigma de "coisa de stripper".

Para ler o original, clique AQUI
Uma entrevista com Carolena Nericcio

Tradutora: Suzana Guerra | Revisão: Aline Oliveira | Edição: Ana Harff


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