sexta-feira, 7 de agosto de 2015

KAJIRA ENTREVISTA CAROLENA NERICCIO - PARTE 2

"A IGNORÂNCIA É UMA VIRTUDE"

Uma entrevista com Carolena Nericcio, Instrutora e Diretora da FatChanceBellyDance de São Francisco. Entrevista conduzida por Kajira Djoumahna, em 06/01/96. 











Como você criou o termo "Estilo Tribal Americano"? Eu o criei? Eu poderia tê-lo maquiado para se safar da "polícia étnica" que está sempre no meu caminho! Então, se eu fui  a pessoa que acrescentou isto, pode ter sido para esclarecer que não estamos tentando imitar uma tribo específica, somos com certeza pessoas Americanas que apreciam esta forma de dança, e não estamos afirmando ser autênticas. Na verdade, alguém pode ter me dito: "Você faz Estilo Tribal Americano", e eu provavelmente disse: "Sim!"

Quantos membros existem atualmente na FatChanceBellyDance? 
Dez, incluindo eu mesma. (Membros além de Carolena são: Suzanne Elliot, Jill Parker, Rina Rall, Suzanne Dante, Kerensa DeMars, Karen Gehrman, Melinda Lee, Pamela Nickerson & Kathy Stahlman.)

Os membros da trupe são amigas próximas assim como companheiras de trupe? Eu acho que nós costumávamos ser muito mais próximas, mas nós esgotamos! O grupo central e eu estamos juntos por muito tempo - 6 anos - e eu acredito que nós somos com certeza velhas amigas. Os membros mais recentes estão apreciando o companheirismo do grupo, mas em geral, não são tão próximas  quanto costumava ser. Eu encorajo todas a se darem bem e conhecerem umas às outras. Isso realmente ajuda quando você está dançandoe  sabe que alguém teve um dia ruim, então você sabe que não deve jogar nada que a atrapalhe, ou se alguém está se sentindo muito poderosa, você pode jogar-lhe muita da responsabilidade extra.

Eu reparei que a FCBD está usando um pouco de coreografia agora. Alguns anos atrás vocês se afastariam  da idéia . Como você decidiu incluir a coreografia em seu repertório? 
Nós dividimos definitivamente nossos espetáculos em duas coisas, uma delas, coreografias, a outra, a improvisação. No começo, nós não sabíamos como fazer a coreografia. Nós não tínhamos desenvolvido o bastante de um formato para todas fazerem a mesma coisa. Levou vários anos de improvisação e conhecimento dos nossos movimentos próprios   até que pudéssemos considerá-la. Então agora, quando nós dançamos nos cafés, que são muitas vezes formatos estranhos e pequenos que você realmente não pode contar , porque as mesas são movimentadas, ou os garçons estão passando por elas com a comida, nós apenas fazemos improvisação. Você realmente não pode fazer coreografias ,por isso! Você estaria uma bagunça - com medo de que se você escapou de esbarrar, você não poderá escapar de novo. Mas se estamos fazendo algo em um grande palco, no Festival de Dança Étnica, ou um dos grandes festivais de dança do ventre, ou nosso espetáculo no Teatro Artaud, nós decidimos que não podíamos apenas sair improvisando! Sabíamos que precisávamos de uma estrutura real. Foi difícil para nós, nenhuma de nós realmente queria fazer isso, porque significava contagem e estar preocupada e não perder um sinal... nós perdemos a paciência várias vezes! Eu tenho vídeos com alguns erros realmente incríveis... Mas foram os dois ambientes, o palco e o café, que nos impulsionaram nas coreografias e   na improvisação . Conosco , nossas coreografias são baseadas em nosso estilo de improvisação. Eu não sei se isso é verdade com outras formas ou estilos de dança. Eu suspeito que o contrário seja verdadeiro muitas vezes . A maneira que nós fazemos a nossa coreografia é baseada no que fazíamos quando estávamos fazendo improvisação; as linhas de visão ainda são as mesmas, os ângulos são ainda os mesmos. A apresentação é uma espécie de improvisação formal.

A FCBD também usou ritmos além de 4/4 recentemente. Como isso aconteceu? Você poderia provavelmente entitular este artigo "A ignorância é uma virtude"! Nós não entramos nesta cena toda da dança do ventre com um plano! Esse lance todo de popularidade foi uma surpresa agradável. Masha nunca ensinou nada senão 4/4. Eu não tinha nenhuma idéia do que fazer com um 9/8 - o que você faria com essas três batidas no final? Então quando nós (FCBD) encontramos um par de melodias que gostamos que vieram a ser 6/8s, só começamos a dançá-las como se fosse um 4/4. Eu tenho que creditar SusuPampanin por bater na minha cabeça e me dizer que eu estava viajando! Eu realmente fiquei irritada com ela no começo, e disse a ela: "Não me diga o que fazer! Eu sou uma artista - Eu posso fazer tudo que eu quero!". Mas então eu realmente olhei a natureza de um 6/8, versus a natureza de um 4/4, e percebi que ela estava certa. Mas nós não sabíamos passo algum para 6s. Então eu decidi que alguns dos nossos passos de 4/4 poderiam ser divididos em dois, e então utilizados em 6/8s. O padrões do toque de snujs foram ajustados de acordo também. Então agora nós podemos usar 2/4, 4/4, 4/8 e 6/8s... mas não me peça para tentar um 9 ou um 12! Eu me desprendi da necessidade de tentar fazer  de tudo – dando certo ou não. Nós apenas fazemos o que é apropriado para nós, e todas as outras podem fazer todo o resto tudo o mais!

Você tinha, ou você fazia, estudo de alguma outra forma de dança? Eu estudei pouquíssimo sobre Kathak (tipo de dança indiana) e um pouco de Flamenco. Eu estudaria mais se houvesse tempo mas não há para mim. Eu incentivo as meninas a estudar essas formas também, e elas realmente amam o Flamenco. Muito embora eu não ache que elas tenham pegado a dança Indiana.

Kathak e Flamenco são influências estilísticas para a FCBD? 
Com certeza. É esse lance todo de Trilha Cigana. Eu não vejo como qualquer uma de nós poderia evitá-la! Nós todas temos essas influências, quer saibamos disso ou não. (como dançarinas do ventre). Eu acho que as dançarinas de Flamenco têm alguma influência de dança do ventre, é recíproco. Mas eu não acho que as dançarinas Indianas Orientais tenham também influência; este estilo é antigo e portanto muito disciplinado. Eu não acho que ele recebeu influência.

A FCBD ainda usa música ao vivo? Eu prefiro não usar. Eu tentei, eu realmente dei o meu melhor. Mas é muito difícil conseguir músicos que mantenham o tipo de ritmo que nós queremos e não os  deixe entediadas. Nós realmente precisamos de muita repetição. Eu acho que as pessoas não percebem é que a música de dança Oriental e a música de dança folclórica são duas coisas diferentes. Nós com certeza precisamos da folclórica. Não há um monte de bandas folclóricas. Sirocco é apenas a única que eu encontrei que realmente pode estabelecer esta base de tabl beledi (tambor dupla face tocado com varas) e mizmar (instrumento de sopro semelhante a uma corneta) poderosa, e  permanece nela até que eu os sinalize para mudar.

Como você chegou ao nome, FatChanceBellyDance? 
Eu não queria um nome para a minha trupe de dança que fosse tão difícil de pronunciar quanto meu sobrenome ! Eu não sentia qualquer ligação com nomes Árabes porque eu não sou Árabe. Há aquela história sobre quando eu era jovem e boba, diria aos homens que eu era uma dançarina do ventre e eles pediriam por um espetáculo privado. Eu pensaria "Fat Chance! (sem chance) " . Eu contei ao meu amigo Jim (Murdoch), que é um palhaço, com um senso bastante sutil mas constante de humor, e ele apenas disse: "Oh, Fat Chance Belly Dance!" Eu só sabia que queria isso! O primeiro grupo de dançarinas odiaram totalmente o nome. Elas não podiam acreditar que eu tinha escolhido um tal apelido deselegante pavoroso para descrevê-las. Mas eu sabia o que estava fazendo, eu escolhi uma frase Americana para uma trupe de Estilo Tribal Americano que era simples e cativante a qual ninguém seria capaz de esquecer. A seu mérito, ninguém se esqueceu ainda!

Há quanto tempo você ensina? 
Desde 1987.

Você tem as maiores turmas, mais aulas por semana que qualquer professora de dança do ventre que eu já vi. Em sua opinião, quantas alunas cursam suas aulas a cada semana? 
Cerca de cinqüenta.

O quê, você acredita, a o torna uma das professoras mais populares na Área da Baía de SF? 
Consulte o título desta entrevista! (risos)... Bem, no início, havia um grande alvoroço sobre as tatuagens, porque  então, muitas  mais de nós eram tatuadas do que agora. Isso foi apenas um puro golpe de sorte no entanto, porque a maioria de nós já era tatuada antes  mesmo de nos conhecermos. Nós gostávamos disso, nós éramos uns tipos selvagens . Naquela época, muitas das alunas tinham amigas que seriam consideradas "alternativas", e estavam interessadas em aprender dança do ventre, mas não estavam dispostas a ir a uma turma em que suas tatuagens ou piercings, seriam consideradas uma aberração. Então eu acho que no começo, foi tudo boca a boca. As pessoas se sentiam confortáveis. Elas podiam relaxar, eles não esperavam olhar ou serem olhadas de um certo modo. Elas podiam ter qualquer  tipo corporal, ou qualquer estilo de cabelo. Nós tínhamos estilos de cabelo e tipos corporais, tatuagens e piercings de TODOS os tipos! É realmente uma coisa de São Francisco ser visualmente incomum. Acho que as pessoas se sentiram confortáveis de virem às a minhas aulas porque elas não seriam examinadas, elas seriam admiradas. Eu acho que, em geral, as pessoas que cultivam um visual alternativo, tão extrovertido e confiante quanto elas parecem estar com a sua decisão, realmente preferem estar  em torno de pessoas como elas mesmas. Há também a afirmação feminina. Tenho certeza que deve ser verdade para turmas de todo o mundo, de qualquer forma. Eu não posso imaginar que uma sala cheia de mulheres coletivamente se colocaria pra baixo! Eu sei que em minhas turmas, as pessoas definitivamente gostam da energia feminina estabelecida. Não é baseado   no que é bonito  para os homens, é baseado no que é bonito  para nós mesmas, e colaboração com outras mulheres. Estou feliz que elas se sintam  deste jeito. Então, foi assim que começou. Agora as coisas estão mais sob controle . Eu realmente escutei e observei minhas alunas ao longo dos anos. Presto atenção ao que elas querem, e se é algo que eu posso providenciar, eu faço. Sou muito leal, mas a estrutura de aulas também é disciplinada. Acho que as pessoas apreciam esse equilíbrio. Essa é a idéia tribal, se você faz o esforço de vir a aula,   encontrarei você em mais da metade do caminho. Mas, você tem que prestar atenção e respeitar a mim e as alunas mais velhas da turma. Nós, por sua vez, apoiaremos e estimularemos seus esforços. Do ponto de vista físico, eu fui arrebatada pela ciência da cinesiologia. Como o corpo se move. E análise do movimento, o porquê de  nos movermos movemos da maneira que nós nos movemos. Esses estudos acrescentaram profundidade a minhas aulas, tenho certeza.

Você se sustenta (economicamente) unicamente da dança do ventre ? Sim, eu me sustento.



Para ler o original, clique AQUI
Uma entrevista com Carolena Nericcio

Tradutora: Suzana Guerra | Revisão: Aline Oliveira | Edição: Ana Harff


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